Mulher: o fardo de ser forte

O machismo e a misoginia levaram Michelle Obama às lágrimas. A ex-primeira-dama dos Estados Unidos conta tudo na sua autobiografia. Por muito pouco, os ataques sofridos por ela devido à seriedade e firmeza que estampava no rosto e tom de voz durante os discursos de campanha do marido não impediram Barack Obama de chegar à Casa Branca. Não venham me acusar de spoiler, já que uma mulher negra ser alvo de variados ataques não é novidade.

Voltemos à Michelle Obama, a mulher negra de 1,80 metro, de família pobre de Chicago, que chegou a Harvard, a um dos maiores e mais poderosos escritórios de advocacia do estado de Illinois e foi mentora de Barack nos primeiros passos na carreira de Direito. Voltemos à mulher que aprendeu com os pais a nunca baixar a cabeça diante do olhar intimidador de um branco preconceituoso e a se esforçar até dez vezes mais do que qualquer outra pessoa para atingir uma posição de destaque na vida e na profissão que escolhera. A história dela é fascinante – não vou entrar em detalhes para não estragar as várias surpresas escondidas entre as mais de quatrocentas páginas da publicação lançada aqui no Brasil pela editora Objetiva. Mas um trecho me deixou especialmente intrigada: a parte em que a ex-primeira-dama conta como se tornou alvo dos ataques dos opositores do marido quase na reta final da primeira eleição de Barack Obama. Muitos anos antes da disseminação vergonhosa das fake news, discursos de Michelle já eram editados, tirados de contexto e divulgados acompanhados de manchetes que a descreviam como uma mulher raivosa e radical. A imprensa conservadora comprou a ideia. Um site de notícias publicou uma matéria com o título: “Será Michelle Obama um trunfo ou um fardo?” E completou: “Sinceridade reconfortante ou franqueza excessiva?”; “Seu visual: majestoso ou intimidante?”

“Olha, essas coisas doíam”, escreve Michelle Obama, que considerou deixar o protagonismo que exercia na campanha e passar a ser “a esposa normal, que aparece só nos grandes eventos e sorri”. Mas como casamento é parceria e Obama era “o cara”, o então candidato disse à mulher que ela trazia muito mais vantagens do que desvantagens à campanha e que ela precisava ter consciência disso. Com o apoio e incentivo do marido, Michelle seguiu em frente. Passou a avaliar suas expressões juntamente à equipe de comunicação e veio o diagnóstico: “meu rosto refletia a seriedade do que eu acreditava estar em jogo, a importância da escolha que o país precisava fazer. Porém, eu era séria demais, severa demais – pelo menos segundo o que as pessoas eram condicionadas a esperar de uma mulher. (…) Ninguém criticava Barack por parecer sério demais ou não sorrir muito”. Entendo perfeitamente, minha cara Michelle. Um homem nunca é criticado por não sorrir muito. Ou pelo seu rosto refletir seriedade extrema, ou ter expressão severa demais. Nunca. E a autobiografia segue citando a também democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, descrita diversas vezes como “uma bruxa”, e, claro, Hillary Clinton, que teve seu gênero usado contra ela “de modo incessante. (…) Era chamada de tirana, resmungona, vaca. Sua voz era considerada estridente; sua risada, um cacarejo”.

A acadêmica feminista britânica Mary Beard, autora de “Mulheres e Poder: um manifesto”, entre outros livros sobre a participação da mulher em esferas variadas da vida, disse certa vez que tem orgulho de sua voz aguda – como a voz da maioria das mulheres – e lembrou que Margareth Thatcher fez aulas de dicção para tornar a fala grave, o mais próximo possível da tonalidade masculina. Isso lá no final da década de 70. Dá um certo desespero constatar que da Dama de Ferro a Hillary e Michelle certos preconceitos permanecem no mesmo grau. Por isso estamos aqui, escrevendo, falando, discorrendo, debatendo...

Fora as lágrimas e a dor de Michelle, causadas pela misoginia e a dureza do racismo, o livro “Minha História” ou “Becoming by Michelle Obama” tem muito romantismo, afeto e diversão. Vale a leitura.

* Jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP