Suicídio e armas de fogo

O acesso às armas de fogo e as taxas de suicídio estão relacionados. O recente decreto do Presidente Jair Bolsonaro facilitando a compra e posse de armas para a população brasileira foi encarado por grupos de ativistas pró-armas como um avanço insuficiente. Estes grupos argumentam que é necessário armar a população para enfrentar o crescente problema de segurança pública em nosso país. Independente de ser contra ou a favor de armar a população, é imprescindível examinar os desdobramentos que isso pode ter no campo da saúde pública, área que numa vista mais superficial parece não estar relacionada ou afetada.

Aproximadamente 800 mil pessoas cometem o suicídio em todo o mundo e pela sua alta frequência, ele é considerado um problema de saúde pública. A Organização Mundial de Saúde calcula que, ao redor do mundo, uma pessoa se suicide a cada 40 segundos. Entre jovens de 15-24 anos o problema é tão grave que o suicídio é uma das três principais causas de morte nesta faixa etária. Um ponto trágico nesta realidade é que esta é considerada uma causa de morte prevenível.

Nem toda pessoa que tenta o suicídio está deprimida e planejando a própria morte, por vezes, a tentativa de se matar se dá num impulso para tentar acabar com uma sensação de pânico, de desespero ou uma dor psicológica que se tornou insuportável, chamada de psychache. Os casos de suicídio impulsivos associados à uma arma de fogo podem provocar sequelas físicas mais graves do que por outros métodos, além de levar à morte com mais frequência. Pesquisadores da universidade de Harvard frisam que nos Estados Unidos, o risco de uma pessoa se matar é três vezes maior nos lares de famílias onde há uma arma de fogo. Além disso, nestes casos, a arma da família é utilizada em 75% dos suicídios completados, enquanto que apenas 20% das tentativas não completadas de suicídio utilizaram armas.

Toda a discussão em torno do direito às armas publicada nos meios de comunicação não tem levado em conta o impacto que isso poderá ter na questão do suicídio. Em meu consultório, escuto policiais e militares de altas patentes que há tempos refletem sobre a associação entre o acesso às armas e o suicídio, uma vez que entendem que os seus pares estão em risco de desenvolver transtornos depressivos e trauma, pelo contato próximo com a realidade da violência urbana. O caminho para diminuir as taxas de suicídio passa por falar abertamente sobre o assunto, campanhas de prevenção, grupos de apoio e oferta de espaços de cuidado em psiquiatria e saúde mental. É preocupante pensar qual será a profundidade da análise psíquica e antecedentes de saúde mental ofertada em nível nacional para se autorizar alguém a ter uma arma. Nos casos de pessoas com filhos, a reflexão precisaria ser ainda maior, consistindo em discussão sobre a ocorrência de acidentes com crianças e atos suicidas impulsivos.

Segundo o decreto publicado, se um brasileiro mora em área com mais de dez homicídios a cada 100 mil habitantes no ano de 2016, ele tem o direito de adquirir armas e munições. Visto que as taxas de suicídio no Brasil crescem e em 2006 eram de aproximadamente 5 suicídios para cada 100 mil habitantes, também deveriam ser garantido o direito ao acesso de ambientes de acolhimento e cuidado para aqueles em sofrimento psíquico e em dúvida sobre continuar com a própria vida. Há que se ter cuidado para que o tratamento proposto para diminuir a taxa de homicídios no Brasil não provoque como efeito colateral um aumento nas taxas de suicídios com armas de fogo.

* Psiquiatra, professor permanente da pós-graduação em Psiquiatria do Instituto de Psiquiatria da UFRJ