A falta de Leonel Brizola

No dia 22 deste mês celebrou-se o nascimento de Leonel Brizola, 97 anos atrás, em 1922. Registra-se agora 15 anos de seu falecimento, em junho de 2004. Quando se lembram de Brizola, todos exclamam: Ah! Se Brizola estivesse hoje aqui; Ah! O que Brizola diria? O que Brizola aconselharia?

Leonel Brizola foi o estadista brasileiro de maior envergadura nas últimas décadas da vida brasileira. Uns pontos acima de Miguel Arraes pela sua garra e capacidade de ação; acima de Tancredo Neves por seus compromissos com o povo mais humilde e sua determinação na defesa dos interesse superiores do País. Os três, juntos, são as referências mais marcantes da política nacional desde o fim do regime militar. Os demais são figuras menores.

Dois fatos acerca de Brizola que nos chamam a atenção nesses momentos que temos vivido nos últimos anos. Brizola foi o mais perseguido pela ditadura, confinado por mais de dez anos em um cidade no Uruguai, o mais investigado, abriram contra ele mais de 600 processos. Nada acharam, nenhum centavo desviado dos cofres públicos, nenhum ato ou gesto de conduta reprovável. Depois de ter sido Deputado Estadual, Secretário de Obras Públicas, Prefeito de Porto Alegre, Deputado Federal, Governador do Rio Grande do Sul. Depois do regime militar, governou o Rio de Janeiro por duas vezes. Foi responsável por orçamentos vultosos. Pois bem, com o falecimento de sua esposa, D. Neuza, e dele próprio, os bens que possuíam representavam um terço dos bens herdados por D. Neuza e trazidos para o casamento.

Era um político de visão transformadora, inconformado com as injustiças e a vida de miséria de milhões de brasileiros e com a submissão do Brasil aos interesses de grupos econômicos e nações estrangeiras. Um revolucionário. Na volta do exílio, Brizola disse que o trabalhismo que iria liderar era o caminho brasileiro par o socialismo. Foi buscar inspiração em Getúlio Vargas, em pronunciamento em convenção do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, que fundara, em 1947. Vargas fez críticas às democracias liberais, apontou suas falhas e afirmou que a democracia socialista era o que ajudaria a construir melhores nações naqueles tempos. Era a raiz do seu pensamento positivista ligado aos primeiros republicanos brasileiros e a Augusto Comte, fruto das lições que este recebera de seu mestre Saint Simon, dos mais célebres socialistas de início do Século XIX. Brizola afirmou então: “A democracia...só se realiza, plenamente, com justiça econômica e social, que proporcione a todos oportunidades iguais para usufruir de uma vida digna e dos benefícios do progresso e da civilização”. A democracia socialista, essência do seu pensamento.

Brizola procurou inspiração e raízes para sua luta política na trajetória mais significativa da política brasileira: o trabalhismo, a Revolução de 1930, o getulismo. Para ele não se podia improvisar, sem um fio condutor da história a política ficaria sem rumo, ao sabor do humor das personalidades e submissa aos interesses dos grupos.

Em sua visão e ação revolucionária, Brizola construiu mais de 6.600 escolas no Rio Grande do Sul (de pequeno porte), desapropriou as multinacionais de energia e telefonia (Bond & Share e ITT) para propiciar condições e dar instrumentos ao desenvolvimento do Rio Grande do Sul. Apoiou e ajudou a organizar os movimentos dos agricultores sem terra (Master, na época) e foi fundo na Reforma Agrária (aliás, sua esposa, D. Neuza, doou duas de suas fazendas para a Reforma Agrária). No Rio, em seus dois governos, construiu mais de 500 CIEPS, os famosos brizolões destinados a colher as crianças o dia inteiro na escola, assistidas plenamente com educação, comida, segunda professora para ajudar nos estudos, esporte, médico, dentista, óculos grátis. A Universidade Norte Fluminense, voltada para a tecnologia, Linha Vermelha, Sambódromo, duplicou o sistema de água do Guandu e destinou ao abastecimento da Baixada, garantiu a posse da terra, não deixou as famílias serem despejadas, acabou com a prática de prisões por vadiagem (desempregados sofriam), nem invadir barracos (só com ordem judicial) ou fazer disparos a esmo, para evitar balas perdidas que tiram tantas vidas nas comunidades pobres.

Brizola andou pelo mundo, fez contato com lideranças e partidos políticos no campo progressista, em especial Jimmy Carter, Mandela, Fidel Castro, Mário Soares, Mitterand, Olaf Palme, Willy Brant, Ted Kennedy. Foi Vice Presidente da Internacional Socialista.

Com Brizola e muitos de sua geração, a política era praticada com dignidade, o interesse público, o interesse nacional eram as referências daquela gente. Nada de baixaria, pequenez, interesses menores.

Ah! que saudade, que falta Brizola nos faz.

* Foi deputado federal e secretário de Justiça de Brizola