Os dardos de Davos e a sabedoria de Lampedusa

O discurso de Bolsonaro na reunião do Forum Econômico Mundial talvez mereça uma releitura menos apaixonada. Sim, o discurso foi curto e provocou críticas generalizadas na imprensa brasileira e internacional. Por que o chefe de estado brasileiro adotou este caminho aparentemente primário em sua viagem internacional?

Qualquer aluno do Instituto Rio-Branco poderia, sem dificuldade, desenvolver os pontos principais do discurso e transformá-lo numa peça retórica de quarenta minutos de duração. Talvez Bolsonaro recebesse um tratamento positivo da imprensa e o entusiasmo incontido do empresariado financeiro e econômico reunido em Davos. Mas, tudo tem um preço . E o preço de um aplauso de pé daquela audiência poderia sugerir compromisso do país com os fundamentos canônicos do neoliberalismo. Na leitura cuidadosa do texto ,mais do que o escrito, importa o omitido. E é fácil de perceber que as frases curtas e duras, passaram certamente por um processo de poda evidente, a roçar estilo e gramática apressadas ou apresadas. Ao contrário de texto mal elaborado, o resultado final indica o trabalho de múltiplas mãos de tesouras. Se minha especulação procede, caberia tentar desvendar porque se adotou essa orientação de notas semibreves , num discurso que, tradicionalmente, deveria ser em dó maior.

Aqui adentro um terreno movediço. Mas, não deve o analista temer o risco da introspecção, quando dela possa surgir a luz da convicção . Na releitura do texto ,chama a atenção a referência, mais de uma vez, a uma política despida de viés ideológico. Talvez, para o leitor não-brasileiro a referência pareça irrelevante. Para nós, não pode passar despercebida, sobretudo quando nos lembramos do discurso de posse do chanceler brasileiro, onde, dentre outras pérolas, se fez uma análise exótica sobre a ideologia da globalização. Essa visão “nouveau roman “ de uma das filhas queridas do Forum de Davos não poderia ser exposta diante de uma assembleia que certamente a receberia com dardos de crítica e de ridículo. Pior, sequer poderia ser modificada sem desqualificar as linhas mestras da nova diplomacia brasileira anunciadas solenemente no Itamaraty, diante do corpo diplomático estrangeiro. Dessa forma, a ideologia do globalismo e seu viés anti- China enrijeceram o discurso e o engessaram de tal forma que nem o mais brilhante aluno do Instituto Rio- Branco poderia azeitá-lo sem incorrer em reações avinagradas de seu chefe superior e do muso filósofo - ruminante. Não fosse o poder deletério deste viés ideológico, o discurso muito se enriqueceria com uma crítica ponderada dos efeitos nocivos da globalização financeira e econômica, hoje reconhecidos por relatórios elaborados pelo Forum Econômico Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional e pela OCDE a alertar para a imperiosa necessidade de se encontrar meios e modos de corrigir as desigualdades sociais trazidas pela globalização. Poderia ainda - não fosse o viés ideológico, repito - ter permitido uma crítica do desmonte do sistema multilateral de comércio, com óbvias dificuldades que o renascimento de um protecionismo predatório nos traz. Assim procedeu ,por exemplo, Angela Merkel. Mas, se o fizéssemos ,correríamos o risco de cair nas iras de Trump, elevado pelo eminente chanceler à condição de defensor supremo da civilização ocidental ,como é público, notório e universalmente reconhecido. Finalmente, a nova ideologia diplomática impediu que o Presidente pudesse ter qualificado a abertura de nossa economia , defendida pelo Ministro da Economia como um abra-te-sésamo , e que não parece levar na devida conta os interesses do empresariado nacional . Registro com satisfação a proposta do Ministro Guedes de taxar a renda do capital e tornar o imposto sobre o consumo menos leonino.Ou estamos na aurora de uma política econômica de combate à desigualdade social ou diante de uma manobra estilo Lampedusa, no imortal Leopardo, em que tudo muda para tudo ficar na mesma. Veremos em breve, porque, também na economia ,os ideólogos do neoliberalismo veem afiando a cutelaria. E os escalpelados seremos nós.

* Embaixador aposentado