Dicas do Aquiles: Brincando de ser esfuziantes

Falaremos hoje sobre o som tão rico quanto inconfundível do Duo Taufic, integrado pelos irmãos Eduardo e Roberto Taufic. Eduardo é pianista e Roberto é violonista. Para comemorar dez anos de carreira do duo, eles lançaram D`Anima (independente). O disco contém treze músicas gravadas na Itália, em 2017: onze composições dos irmãos Taufic (quatro de Eduardo, cinco de Roberto e duas em parceria) e duas releituras, “O último pau de arara” (Venâncio e Corumbá) e “Lôro” (Egberto Gismonti).

Macaque in the trees
. (Foto: Reprodução)

A capa reproduz uma tela pintada por Taufic José Hasbun Yacaman, pai dos irmãos Taufic: uma alegoria abstrata com teclas de piano e braço de violão, o que aponta a magnitude da consideração dada pelo pai à música e a seus dois “meninos”. Virtuosos, Roberto e Eduardo se valem de técnica apurada para dela extrair emoção. Desafetados, tudo neles soa com a naturalidade de quem tem plena consciência de seus predicados. Ouvi-los hoje é como se apreciássemos dois meninos brincando de tocar algum instrumento, sorrindo e pensando: “Esses garotos ainda serão músicos!” Voltemos à dica. A tampa abre com “D’Anima” (Eduardo Taufic), tema que dá título ao álbum. O início é numa levada suave.

Os dois instrumentos caminham juntos. Arritmo, eles se complementam. O piano assume o protagonismo. Logo, ele e o violão retomam o desenho melódico. Uma nota grave do piano, um acorde do violão, e a bela composição abraça sua sina de encantar. Ouvi-los é como se violão e piano pertencessem a um só corpo, sendo manuseados por mãos que não se pode contar. Mas que parecem ser oito.

A seguir, “Compadre no frevo”, outra das quatro músicas de Eduardo Taufic. O frevo ferve. O piano inicia com um desenho simples, mas belo, para logo fazer as vezes de contrabaixo. A seguir, o próprio violão esquenta a levada com um improviso. Depois, a exemplo do que já zera o piano, o violão faz as vezes de baixo. Caindo no passo, piano e violão, como num jogo de pega-pega, brincam de saltitar pelas notas da melodia. E lá se vão os dois simplesmente a tocar, sendo nada menos do que esfuziantes.

Em “Tribal” (Eduardo e Roberto Taufic), uma das duas parcerias dos irmãos gravadas no CD, o violão inicia o tema tocando em harmônicos. Com um acorde, seguido por notas dedilhadas, o piano se ajunta à festa, seguindo a levada do violão. “Choro mineiro” (Roberto Taufic) surge com um acorde do piano. O violão vem a seguir solando o tema. Linda, a canção prossegue exalando bonitezas pelo ar. “Lôro” (Egberto Gimonti) tem o piano chamando o violão para conversar.

Um fala, o outro responde, e assim a bela composição dá o ar de sua graça. E que graça! “Valsi cando” (Roberto Taufic) fecha a tampa. Acompanhado pelo violão, o piano sola a linda melodia. A mais bela do disco. Meu Deus! Ouvindo nuances rítmicas, uníssonos, improvisos adequados às harmonias e primorosas sequências melódicas, saca-se a mestria dos Taufic: eles tocam para fazer da música algo como uma obra prima.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4