Smartphones e democracia

O número de proprietários de smartphones tem crescido nos países em desenvolvimento e emergentes como o Brasil. Estatísticas recentes apontam que o total desses telefones deverá se aproximar ao nosso volume de habitantes, que é atualmente cerca de 209,3 milhões.

Consequentemente, a mídia social, através do uso da tecnologia, tem evoluído tanto que mudou a maneira como os brasileiros navegam no complexo território político e eleitoral. Durante as últimas eleições presidenciais assistimos a mídia social ameaçar a televisão, que era o meio tradicional mais usado e capaz de influenciar os eleitores.

Nas recentes eleições presidenciais, sem debates na TV, o Twitter se transformou num campo de batalha entre os dois candidatos que foram para o segundo turno. Às vésperas da eleição através dos números computados por meio das hashtags, podia se concluir que o atual presidente da República, Jair Bolsonaro, levava uma grande vantagem em relação ao seu adversário.

Nessas eleições ficou muito claro que a atividade na mídia social ou a falta dela, estaria determinando o sucesso da campanha. Parece que estamos passando por uma mudança de paradigmas no que se refere à comunicação política e o Brasil tem sido um caso de análise e observação.

Nesse contexto, sobressaem as hashtags, que são frases ou palavras chave precedidas do símbolo jogo da velha (#). Quando inseridas num post, elas fazem com que seu conteúdo seja encontrado nas buscas através da Internet. Depois do sucesso da #B17, que é o número do candidato vencedor das eleições presidenciais, surgiram hashtags para influenciar a escolha do presidente do Senado e exigir que a decisão seja através de voto aberto.

A mídia social se tornou uma força global para a democracia desde os protestos no Irã em 2009, a conquista de 12,6%, a vitória do Brexit em 2016 no Reino Unido, a campanha vitoriosa de Trump nos Estados Unidos e a conquista da presidência do Brasil de um candidato com oito segundos de tempo de televisão. As pessoas parecem ter constatado que com o suporte das redes o poder está de volta em suas mãos.

Diante desse cenário é relevante observar que a primeira grande mudança da comunicação não está acontecendo agora. A invenção da imprensa, no século 15, resultou em uma grande revolução que transformou a sociedade europeia. Da mesma forma que as mídias tradicionais estão sendo ameaçadas, a tradução da Bíblia do latim para o alemão, promovida por Martim Lutero, ameaçou o poder da Igreja Católica Romana, que não queria que as pessoas lessem a Bíblia sozinhas. A invenção da imprensa, então, anulou aquele processo e a Igreja teve que se adaptar à realidade.

Os jovens que nasceram após 1980 não se alimentam através de notícias de jornais e TV, mas, primeiramente, através da mídia social. Creio que seja inquestionável afirmar que o ativismo por meio das redes tenha surgido para ficar e provocar mudanças.

Será que iremos votar através de smartphones? Será que as principais decisões econômicas e políticas serão tomadas através das mídias sociais e seus aplicativos? Até quando estaremos enviando políticos para Brasília e que contratam um número excessivo de assessores sem qualquer transparência e com salários muitos mais altos do que o resto da população brasileira?

Respostas precisas para essas perguntas são muito difíceis. Entretanto, podemos discorrer sobre as mudanças que estão ocorrendo no mundo. Na Austrália existe um experimento com democracia direta através do aplicativo denominado Flux; na Argentina, com o DemocracyOS. Foram criados para diminuír a distância entre os políticos e seus constituintes. As instituições que quiserem continuar sendo relevantes terão que se adaptar. O melhor exemplo a ser observado, no que se refere à resiliência, é o da Igreja Católica: um caso raro de longevidade, superando 2000 anos de existência.

* Presidente do Sindiex – Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do ES

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