O Brasil e o nosso Ocidente

Manifestações políticas do conservadorismo no mundo ocidental têm se colocado em oposição ao conceito de globalização. Uma leitura isolacionista a combate como se fosse o começo de uma nova “Cruzada” do pensamento ocidental e cristão contra as forças vindas do Oriente. O circulacionismo do capital foi se desligando do mundo da política. Então, aos poucos, o cenário de crise econômica após 2008 permitiu a reapresentação de soluções retrógradas em favor da elite econômica. Assim, o nacionalismo e a xenofobia na Europa alimentaram a retórica da volta da “Grande América” de Donald Trump no slogan “Torne a América Grande Novamente”.

Nesse cenário de fragmentação das forças democráticas, não é mera coincidência que os admiradores do alemão Oswald Spengler ganhem força na interpretação de nossos rumos na política externa brasileira. Spengler defendia uma visão cíclica da História e das Culturas com um viés para a hierarquização. Trata-se de um pensador do ressentimento dos alemães no final da I Guerra Mundial, que inspira os novos desafios da sociedade brasileira no mundo neste século 21. Na verdade, esse ambiente pessimista e cético é uma orientação muito “ideologizada”, com ameaças para muitos acordos celebrados pelo país (por exemplo, o Acordo de Paris e o Mercosul).

Reapresentam a doutrina da decadência da Civilização Ocidental. Os liberais, que saúdam as vantagens da quebra das fronteiras dos Estados Nacionais para a expansão das transações comerciais, são questionados por esses neoconservadores como responsáveis pela migração de contingentes humanos para Europa e EUA. Alimentam um anacrônico “anticomunismo” nas suas argumentações, ao mesmo tempo em que incentivam iniciativas ultraliberais na economia. O multiculturalismo é denunciado como uma proposta de esquerda que pretende a hegemonia das ideias em favor do meio ambiente, contrárias à desigualdade de gênero, pelo respeito às minorias etc.

Esse é um olhar sobre o mundo ocidental que o Brasil nunca compactuou. O nosso Ocidente foi construído de forma moderada e gradual com um espírito de inclusão de todos. O pensamento social brasileiro nos conferiu o Barão do Rio Branco, Joaquim Nabuco, Osvaldo Aranha e San Tiago Dantas numa linha reformista pactuada em favor de uma inserção soberana do país nesse mundo multipolar. Agora querem alinhar nossa política externa a uma postura de dependência aos interesses aventureiros “trumpianos”, o que implicará em sérios custos para os setores produtivos das indústrias e até para setores do agronegócio.

A Carta de 1988 determina, no seu artigo 4º, que tenhamos como princípio a “cooperação entre os povos para o progresso da humanidade”. Nessa trilha está a nossa ocidentalização política pela via democrática com respeito ao princípio da solução pacífica dos conflitos e prevalência dos direitos humanos. O “Norte” da Constituição ainda aguarda o empenho pelo respeito ao parágrafo único do mesmo artigo, que diz: “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando a formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

* Mestre em Sociologia e professor de História