Olhar sobre o universo

Nos tempos atuais, quando assistimos a uma onda de ignorância, arrogante, perpassar a sociedade, é reconfortante lembrar-se do esforço bem-sucedido dos cientistas que produzem um olhar preciso, essencial e maravilhoso sobre o universo.

Quantas falsas verdades tivemos que ultrapassar, quanta arrogância ingênua de séculos passados foi necessário enfrentar para que pudéssemos enfim entender que o mundo não se limita ao que nossos olhos veem. No século 20 conseguimos observar quão vasto o universo é. Descobrimos a imensidão dos céus, a partir da existência de centenas de bilhões de estrelas que formam nossa galáxia, esse nosso recanto cósmico, que chamamos com intimidade de Via Láctea. Indo além, os astrônomos mostraram que a Via Láctea é uma dentre centenas de bilhões de galáxias que se estruturam em nosso horizonte observável.

Essa imensidão não deve levar ao lamento de nossa finitude, nem enfatizar a pequenez humana. Não devemos igualmente adentrar caminhos delirantes, herança de uma concepção europeia antropocêntrica, que pretendeu associar a dinâmica deste universo a alguma forma de princípio antrópico, sugerindo, assim, que a origem e a evolução desse universo dependem da ulterior presença humana.

Não, não devemos nunca mais nos colocar, desvairadamente, no centro do mundo. As experiências do passado devem nos ajudar a eliminar essa enganadora e inútil ambição. A ciência do cosmos, a cosmologia, está se encarregando de formular sua grandiosidade.

Ficamos certamente extasiados com o deslumbramento que nos atinge ao olhar para os céus e recolhermos o que gratuitamente o cosmos nos envia das estrelas e mesmo além, do universo profundo. Mais importante ainda é a produção de um cenário rigoroso e no entanto, encantadoramente simples desse cosmos, feito através da orquestração do pensamento científico de várias áreas, de nossa inteligência, através da observação e do estudo sistemático.

Hoje sabemos que o universo é um processo dinâmico e em expansão. Seu volume total aumenta com o passar do tempo cósmico. Nossos telescópios mostram que ele é espacialmente homogêneo, isto é, as propriedades do espaço são as mesmas em toda parte. Em outras palavras, não existe nenhum lugar privilegiado nesse imenso cosmos democrático.

As estrelas, as galáxias que observamos nada mais são do que flutuações aleatórias em meio a essa grandiosidade homogênea. Além delas, tudo mais, incluindo planetas e a própria vida, foi constituído graças a essas flutuações. Somos decorrência delas, literalmente restos especiais da morte de estrelas, companheiros dessa caminhada cósmica, conforme as palavras de um astrônomo poeta.

Reconhecer a grandiosidade celeste não significa omitir olhar nossa Terra, esquecer nossa espécie. O homem construiu um “eu” para sobreviver enquanto singularidade. Não podemos perder de vista que essa organização, que cada um de nós chama “eu” é passageira. Mas os átomos que formam o arcabouço de nossos corpos serviram a outros corpos, a outras coisas, existências inanimadas e vão continuar servindo após esse “eu” não existir. Ou seja, esses átomos, nossos átomos, são viajantes incansáveis e indestrutíveis deste universo.

A humanidade sempre se perguntou por que(m) brilham as estrelas? A resposta é simples: para sua própria ordem, para estabilizar seu interior, alguns de seus átomos se transformam em outros e emitem fótons, essa luz que incendeia o cosmos e chega a nós. Dessas estrelas saem também neutrinos, minúsculas partículas que vagueiam no cosmos e que não podemos ver. Como esses neutrinos tem fraquíssima interação com a matéria, enquanto você lê este artigo centenas de milhares desses neutrinos passam através de seu corpo como se você não fosse um sólido compacto, sem que você os sinta. Não há nada de misterioso: isso é parte da beleza da natureza descoberta pelos cientistas.

Na sociedade do século 21, é possível ainda alguma forma de emoção e deslumbramento por esse cosmos? E mais: podemos dispensar intermediários nesse deslumbramento? Somos indiferentes ao universo? Será então que nos emocionamos apenas com o espetáculo artificial midiático que nos oferecem?

Podemos admirar este universo que, como dizem os cientistas, nada mais é do que uma flutuação do vazio? Devemos então dar graças a este vazio não ser estável, pois caso contrário, até mesmo esse universo não existiria.

Desse modo, seguindo este caminho, os cientistas nos prepararam para entender a questão filosófica de longa data: por que existe alguma coisa e não o nada? A resposta da ciência é direta, completa e simples: existe alguma coisa, esse universo, porque o vazio original não é estável. É precisamente a instabilidade do vazio que possibilita estarmos aqui, contemplando perplexos esse cosmos único.

* Professor emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas