Vivemos tempos perigosos

Informa a “Bloomberg”: prossegue a derrocada das bolsas americanas. O frenesi que turbinava os mercados de ações cedeu lugar à busca de proteção e liquidez nos títulos do Tesouro. A curva de rendimentos desses títulos seguros e líquidos achatou, denunciando temores diante dos cenários da economia global. A China e as economias europeias perdem força e o endividamento global atinge marcas assustadoras.

Desde o início do festival de altas nas bolsas, os pessimistas de sempre falavam, de forma desdenhosa, do rally dos trouxas, episódios de euforia que, logo ali, na próxima esquina, seriam tragados pelos desequilíbrios entre o desempenho da economia real e a disparada dos preços doa ativos.

A reputação das previsões econômicas e de seus autores mais conhecidos, os economistas, não está em boa forma. Mas a despeito de seus desacertos recorrentes, as previsões são inevitáveis. Os práticos e soi-disant teóricos da ciência triste estão condenados a imaginar o futuro.

Assim, devo arriscar a pele. Prudentemente, começo pelo passado: depois do colapso financeiro deflagrado pela quebra do Lehman Brothers, os preços dos ativos privados foram atropelados pelos mercados em pânico, na busca impossível da “desalavancagem” coletiva. Vendedores em fúria e compradores em fuga prometiam uma deflação de ativos digna da Grande Depressão dos anos 30. Foram socorridos pelo inchaço do balanço dos Bancos Centrais.

Nos últimos anos, as Bolsas dos EUA e os rendimentos nanicos dos bônus do Tesouro fumegam os vapores que, mais uma vez, sopraram às alturas os preços dos ativos. Nas horas vagas, e nas outras também, as empresas se entregam à bulha da recompra das próprias ações e mandam bala na distribuição de dividendos com a grana do Federal Reserve.

Não são desprezíveis os riscos embutidos no comportamento dos mercados financeiros pós-crise, empurrados para outra bolha nas Bolsas e nos preços elevados (e rendimentos baixos) dos bônus privados e públicos. Diga-se que, no “planeta Ocidente”, são as empresas e bancos que “financiam” os mercados de ações ao tomar crédito barato para comprar de volta os papéis (buy back) negociados e abrigá-los em tesouraria, com o propósito de turbinar os preços e agradar aos acionistas, proporcionando ganhos para os administradores remunerados com stock options.

É impressionante a evolução da saída líquida de recursos das grandes empresas para remunerar os acionistas e recomprar as próprias ações. No período 1976-1985, as transferências de valor para os acionistas chegaram a US$ 290 bilhões (0,4% do PIB). Entre 1986 e 1995, alcançaram a casa dos trilhões, US$ 1,54, para avançar entre 1996-2005 para US$ 4,46 trilhões (2,6% do PIB) no período 2006-2015.

Inverteu-se a relação entre os recursos destinados ao investimento e aqueles utilizados para propiciar a elevação “solidária” dos ganhos dos acionistas e a remuneração dos administradores (stock options). A associação de interesses entre gestores e acionistas estimulou as compras das ações das próprias empresas com o propósito de valorizá-las e favorecer a distribuição de dividendos. A isso se juntam a febre das fusões e aquisições, o planejamento tributário nos paraísos fiscais, o afogadilho das demonstrações trimestrais de resultados e as aflições das tesourarias de empresas e bancos açoitados com o guante da marcação a mercado.

* Economista