O atual e célere mundo mutante

O tempo é dinâmico e o que é valido hoje, muito naturalmente é invalidado com novas descobertas amanhã, e é nesse ritmo que os anos têm passado. O que surpreende e amedronta um pouco é a extrema velocidade com que se sucedem as substituições. Tomemos, por exemplo, a natureza do trabalho, em que é gritante a mudança do que ela sofreu, sobretudo nos últimos dez anos. Aconteceram revoluções importantes na automação e na informação. Neste nosso mundo tão tecnológico, a Inteligência Artificial modificou fortemente o perfil dos profissionais. O trabalho sofreu transformação e tornou-se mais sofisticado.

Zygmunt Bauman, um dos mais inteligentes sociólogos, cidadão judeu polonês, recentemente falecido, investigou profundamente como as relações humanas têm-se crescentemente tornado mais “flexíveis”, com a geração do crescimento de níveis de insegurança. O homem atual não sabe manter por muito tempo laços previamente estabelecidos. Hoje temos problemas com a nossa capacidade de humanizar nosso trato com desconhecidos.

A sociedade de muitos povos na atualidade tende a creditar a estrangeiros e refugiados seus medos sempre crescentes. No seu best-seller “Amor líquido”, ele estudou profundamente as relações afetivas entre os homens de hoje. Trabalhou como professor emérito das universidades de Varsóvia e Leeds. Ele era judeu polonês e morreu na Inglaterra, onde vivia desde a década de 1970. Em seu magnífico livro, Bauman afirma que “viver significa sobreviver. O mais forte vive. Quem ataca primeiro sobrevive”. Ele cita o Holocausto como uma horripilante e mais desumana das lições de barbárie. Em suas próprias palavras “capturar, deportar, trancafiar em campos de concentração, demonstrar a futilidade da lei pela sumária execução de suspeitos, espalhar o terror que aleatória e casualmente infligia muitos tormentos – foi amplamente comprovado que tudo isso serve à causa da sobrevivência e é, portanto, racional”.

Prosseguindo, Bauman enfoca o tema da descartabilidade dos seres humanos de hoje em dia. Daí o conceito de que ninguém é indispensável. Ele acentua a noção de que “se você não for mais duro e menos escrupuloso do que todos os outros, será liquidado por eles, com ou sem remorso. Estamos de volta à triste verdade do mundo darwiniano que afirma que é o mais apto que invariavelmente sobrevive”.

Bauman continua em seu julgamento contínuo das relações interpessoais na atualidade. “O mundo de hoje parece estar conspirando contra a confiança. Em nossa sociedade supostamente adepta da reflexão, não é provável que se reforce muito a confiança. O que é evidente hoje é a fragilidade dos laços”.

Outro grande perigo que preocupa Bauman é o espectro da xenofobia. “Suspeitas e animosidades tribais, antigas e novas, jamais extintas e recentemente descongeladas, misturaram-se e fundiram-se a uma nova preocupação, a da segurança, destilada das incertezas e intranquilidade da existência líquida moderna. São os criminosos que nos deixam inseguros, são os forasteiros que trazem o crime e consequentemente, mais prisão, mais policiais, sentenças maiores com o juramento do não à imigração, aos direitos de asilo e à naturalização. A modernidade produziu desde o inicio e continuou a produzir enormes quantidade de lixo humano.

A derradeira sanção do poder soberano moderno resultou no direito de exclusão da humanidade. E assim, cada vez mais, os refugiados se veem sob o fogo cruzado, mais exatamente numa encruzilhada. Eles são expulsos à força ou afugentados de seus países nativos, mas sua entrada é recusada em todos os outros. Não mudam de lugar – perdem seu lugar na terra, catapultados para lugar algum, para um flutuante lugar sem lugar, existente por si mesmo, fechado em si mesmo e ao mesmo tempo abandonado na infinidade do mar. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), há entre 13 e 18 milhões de vítimas de deslocamento forçado lutando para sobreviver além das fronteiras dos seus países de origem. Aonde quer que vão, os refugiados são indesejados, e não deixam dúvidas sobre isso.

Os internos dos campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo não podem voltar ao lugar de onde vieram, já que os países de origem nãos os querem de volta, suas formas de subsistência foram destruídas e seus lares pilhados, demolidos ou roubados. Mas também, não existe um caminho à frente – nenhum governo teria satisfação em ver o influxo de milhões dos sem teto, e qualquer um faria o possível para evitar que os recém-chegados se estabelecessem.

Bauman concluiu que “em nenhuma época a intensa busca por humanidade foi tão urgente e imperativa como agora!

* Mestre em Educação pela UFRJ