O inimigo mora no quintal

Desde o ano passado venho acompanhando diversas crianças que desenvolveram microcefalia por conta da síndrome congênita do Zika Vírus. Esse assunto foi muito falado quando casos começaram a aparecer, mas rapidamente “esquecido” pela mídia quando o verão acabou. As diversas consequências vividas pelas crianças infectadas pelo vírus ainda são pouco conhecidas pela medicina, porém vividas cotidianamente pelos familiares dessas crianças que todos os dias são obrigados a desbravar esse novo mundo com pouco ou nenhum amparo do Estado. A microcefalia é apenas uma das consequências desta síndrome. Muitas crianças desenvolvem problemas auditivos, graves anomalias oculares, problemas de locomoção, de alimentação, convulsões, entre outros.

Há um esforço para a construção de uma estrutura legislativa que auxilie essas famílias e garanta melhor qualidade de vida a essas crianças. Em dezembro de 2017, o Ministério da Saúde publicou uma portaria criando a estratégia de fortalecimento das ações de vigilância e cuidado das crianças diagnosticadas ou com suspeita da síndrome, que responsabiliza governo federal, estados e municípios pelas políticas de saúde necessárias para o atendimento dessas crianças. O órgão também criou diretrizes de acesso ao tratamento necessário já nos primeiros dias de vida, uma vez que quanto antes são estimuladas, maiores são as chances de se desenvolverem. Entretanto, infelizmente, esses serviços não são oferecidos tão facilmente pelos municípios, que em geral estão imersos em crises fiscais, ocasionando muitas vezes o desamparo às famílias.

O Estado do Rio está entre os cinco que mais tiveram notificações de casos da síndrome e que mais teve óbitos. A falta de centros de reabilitação atinge diretamente esses bebês. As famílias sofrem também com a dificuldade permanente de acessar remédios de uso contínuo e as unidades básicas de saúde, nas quais os profissionais dizem não saber como atender crianças com a síndrome, o que demonstra uma clara falta de atenção do Estado à capacitação dos profissionais da saúde. Da mesma forma, o Estado segue negligenciando a raiz do problema, o mosquito transmissor, com seu baixo investimento no controle de endemias.

Provavelmente ainda não conheçamos todos os impactos possíveis da síndrome congênita do Zika Vírus, porém, sabemos como ela é adquirida e que o melhor caminho é a prevenção através do combate ao seu vetor, o mosquito Aedes Aegypti, que, com a chegada do verão, tem sua proliferação ampliada substancialmente. Como já disse anteriormente, é um dever do Estado atuar no combate às endemias, mas quero aqui chamar a atenção também, para o nosso dever de cidadão. Precisamos assumir nossa parcela de responsabilidade nessa luta. Atitudes simples fazem grande diferença, como colocar areia nos pratos de plantas; manter lixeiras, tonéis e caixas d’água tampadas; limpas as calhas; deixar as garrafas sempre com a boca virada para baixo; evitar qualquer acumulo de água destampada.

Nós queremos que o Estado faça a parte dele, combata o mosquito e dê todo amparo necessário para essas crianças e suas famílias. Mas nós estamos fazendo a nossa parte? Estamos ajudando a evitar que novas crianças passem por isso? Você pode estar criando um inimigo dentro do seu quintal, ou mesmo dentro de casa. A sua saúde e a de seus vizinhos também depende de você. Não vamos deixar um mosquito nos vencer.

* Vereadora (PT-RJ)