A prisão de Pezão e o ovo abandonado

Ainda não eram 6h quando desci para conseguir uma vaga no Parque Guinle, de onde saio para correr no Aterro do Flamengo. Percebi um movimento anormal na porta do Palácio Laranjeiras, com um número maior de seguranças de preto bastante agitados. Fui premiada com um deslumbrante nascer do sol de temperatura amena apontando no horizonte entre os morros de Niterói e a cadeia que desemboca no Pão de Açúcar. Tudo normal, talvez até mais bonito que o normal. Consegui focar o sol de meu celular entre as traves de um time de futebol na Praia do Flamengo. Golaço da natureza. Mal sabia eu o quão profética seria a imagem...

Macaque in the trees
O sol nasceu quadrado (Foto: Celina Côrtes)

Na volta, quando me aproximava do Parque Guinle, um incômodo e persistente ruído de helicóptero perturbava a paz do ambiente. Patos, gansos e cisnes visivelmente incomodados pela forte poluição sonora. Subi a escada para esticar a coluna em aparelhos localizados numa área mais alta e próxima ao palácio, para compensar a pressão exercida pela corrida que me dá tanto prazer. Notei que uma pata buscara ali um esconderijo para chocar seu ovo. O barulho, porém, era tanto, que ela acabou desistindo de sua mais vital função: proporcionar vida ao filhote prestes a chegar. Não tive a presença de espírito de fotografar o ovo abandonado ou o andar desengonçado daquela fêmea desnorteada. Teria, se já soubesse a causa.

Na volta para casa, além da persistência do insuportável barulho, vi um aglomerado de jornalistas na porta daquele que já foi a moradia de Eduardo Guinle e passou às mãos do estado em 1974. Parei ao lado do motorista do carro de uma rede de televisão e perguntei o que se passava. Ele fez um sinal de jogo da velha com os dedos e disse: “Pezão está indo para casa”. Não precisava explicar mais. A sequência de falcatruas que corrói o Estado do Rio parece não ter fim. Talvez eu nem esteja viva no dia em que essa dramática novela ganhe um ponto final.