Escola deve ser local de crítica e diálogo permanentes

A psicopedagoga Nádia Aparecida Bossa, com mestrado em Psicologia da Educação pela PUC-SP e doutorado em Psicologia e Educação pela USP, coordenou há algum tempo uma pesquisa feita durante cinco anos nas escolas públicas de São Paulo. O estudo revelou que de cada quatro alunos que concluem o ensino fundamental, três saem sem saber ler, escrever e fazer as quatro operações matemáticas.

A psicopedagoga explica: “Para um aluno ter desempenho razoável na escola são necessários desde a alimentação saudável até ter a condição emocional e cultural para levar a escola com a devida seriedade. Temos crianças mal alimentadas, famílias desestruturadas, um tremendo equívoco da função da escola pela população. Muitas vezes nem mesmo os professores sabem qual é o objetivo e o porquê de ter determinados conhecimentos. Família e estudantes também não sabem para que serve todo aquele conteúdo. A pessoa se pergunta: ‘Por que preciso saber história, geografia, equação?’. São tantos outros apelos na vida, existem tantas outras coisas interessando as crianças e adolescentes, que fica difícil para a escola e o conhecimento tomarem um lugar de destaque na mente do jovem... o que se aplica na escola não se aplica na vida, o que se aprende na vida não serve para interpretar na escola. Está aí o grande fracasso”.

Ignorando essas variáveis, e contraditoriamente, o presidente eleito Jair Bolsonaro pretende “expurgar a ideologia de Paulo Freire” das escolas brasileiras, culpando-a pelo fracasso do ensino no país. Antidemocrata e truculento, promete “entrar com um lança-chamas no MEC e tirar Paulo Freire lá de dentro”. Bolsonaro defende, a priori, sem nenhum domínio da matéria, que a educação precisa ser menos crítica e mais objetiva. Ensino à distância desde o fundamental para combater o marxismo que grassa dentro das escolas, segundo Bolsonaro, é outra de suas atrocidades defendidas para a educação.

Homenageado com o título de Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire recebeu outros 41 títulos de Doutor Honoris Causa por universidades como Harvard, Cambridge e Oxford e centenas de outras menções e prêmios, como a Educação pela Paz, da Unesco, em 1986. É o terceiro pensador mais citado do mundo em trabalhos acadêmicos de universidades de humanas. A sua obra “Pedagogia do Oprimido” é uma das mais requisitadas nas universidades de língua inglesa. O mundo civilizado e culto o reverencia e utiliza seus ensinamentos. Jair Bolsonaro e seus adeptos (será que seus eleitores também?) o desprezam.

Na tentativa de cassar o honroso título outorgado pelo Congresso Nacional a Paulo Freire, tramitou no Senado com o nome de “SUG 47/2017” uma Ideia Legislativa proposta por Stefanny Papaiano, de São Paulo, que integra o Movimento Direita São Paulo e apoia o Escola Sem Partido. A relatora da sugestão, senadora Fátima Bezerra (PT-RN), não deixou barato e elaborou parecer contrário à SUG, que foi arquivada, sendo classificada como “estúpida, insensata e ignorante”.

Naturalmente, Bolsonaro e seus seguidores não estão habilitados a fazer críticas fundamentadas aos ensinamentos de Paulo Freire quando defendem a ideia absurda de que é mais produtiva a existência de espaços pedagógicos neutros. O que eles querem e o que lhes convém é uma escola acrítica, obediente e ordeira.

Na verdade, mais do que contestar o método de alfabetização de Freire, o que a extrema-direita de Bolsonaro quer é impedir a emancipação e a liberdade do indivíduo proporcionadas pela educação de qualidade. Sem argumentos, taxam Paulo Freire de comunista, porque ele pregava uma educação humanizadora e libertadora. De acordo com seu pensamento, o ambiente da escola deve ser de crítica e de diálogo permanentes, práticas essas inseparáveis da natureza humana e da democracia. Na visão de Freire, educadores e educandos devem ser instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes, nunca submissos, e persistentes. É isso que o Escola Sem Partido, uma das bandeiras de Bolsonaro, quer impedir.

A “Pedagogia do Oprimido” transcende os portões das escolas, aproximando-se do pensamento de Martin Heidegger e Martin Buber, para quem (Buber) a ética é o único caminho pelo qual Deus se comunica com a humanidade, e a ética só é possível no relacionamento amoroso entre o Eu e o Tu, no espaço aberto por esse encontro, no diálogo que promove o desvelamento do mundo, como propõe em essência Paulo Freire.

Ao contrário de Platão, Heidegger disse que “o mundo não é, o mundo acontece”, e entendemos que só acontece na medida em que nos relacionamos com ele, na medida em que nos abrimos para o diálogo com ele, vivificando-o, nominando-o e, por conseguinte, transformando-o em “Tu”. Essa é a grande lição humanitária de Paulo Freire que os dominadores temem – e muito! – e querem apagar.

Por uma simples razão de limite intelectual, Bolsonaro não deve saber mesmo o que está falando quando hostiliza incondicionalmente o pensamento de mestres como Paulo Freire, cuja grandeza jamais será alcançada por quem é a favor da tortura e, por conseguinte, da revogação de todos e quaisquer direitos humanos, e que por isso mesmo sabe muito bem com que mão segurar o chicote e como utilizar o pau de arara.

Aprendi quando criança que não se deve ter escravos, sob nenhum disfarce, não só pela questão humanitária, mas também porque numa ponta da corrente estará aquele que obedece e na outra aquele que manda, eternamente unidos um ao outro pela mesma corrente, ambos escravizados, até o dia da revolta.

Acho que vai dar ruim. O Brasil e Bolsonaro vão bater de frente.

* Ex-secretário de Cultura e Turismo de Cataguases (MG)