Entre o globalismo e a incivilidade

O presidente francês, Emmanuel Macron, lançou uma advertência: “Nosso mundo está numa encruzilhada”, fraquejando entre o “nacionalismo sem memória” e o “fanatismo sem referências”. O novo chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, confirma que Donald Trump não é um fenômeno isolado. O Brexit, que ora atormenta Theresa May, foi marcado pelo assassinato da deputada britânica Jo Cox. Antes do ataque, o assassino gritou “Reino Unido primeiro”, lema da ultradireita britânica.

Ao analisar o crescimento do Alternativa para a Alemanha, partido de extrema-direita, a revista “Der Spiegel” afirmou: “A estratégia de apresentar uma solução única e incontestável deve ser reavaliada. Caso contrário, o mundo estará encarando uma era na qual serão cada vez mais fortes aqueles que não oferecem qualquer solução, os que só oferecem rejeição e medo”.

O constrangimento do espaço democrático, provocado pelas políticas econômicas praticadas nos últimos 30 anos, apresenta como corolário a rejeição ao “globalismo”, tão bem representado pela dramática ruptura das relações mais “equilibradas” entre os poderes do “livre mercado” e o resguardo dos direitos socioeconômicos.

A desarticulação econômica descortina uma nova fase, marcada por desencontros nas relações entre o modo de funcionamento dos mercados globalizados e os espaços jurídico-políticos nacionais ou apenas parcialmente “internacionalizados”, como é o caso da União Europeia e, pior, da Zona do Euro. É duvidosa a viabilidade de soluções unilaterais. Como afirmou Yanis Varoufakis, contrário à saída da UE: “É improvável que sair vá levá-lo onde você estaria econômica e politicamente se não houvesse entrado”.

Nos EUA, Trump promete entregar mais empregos aos americanos. Há quem argumente que a estratégia de realocação da manufatura vai trombar com a revolução da indústria 4.0 e seu desemprego endêmico e sistêmico engendrado pela substituição de trabalhadores em um vasto espectro de atividades. A jurisdição de Trumbull County, em Ohio, perdeu 49% dos empregos entre 2000 e 2010. O processo foi catalisado pela automação, o que levanta suspeitas sobre a possibilidade de retomar os empregos a partir das políticas protecionistas embandeiradas por Trump.

Segundo estimativas de James Galbraith, apenas 8% dos empregos americanos, hoje, estão na manufatura, e não retornarão aos 30% dos anos 1950. Essas fábricas teriam de ser reconstruídas com a melhor tecnologia disponível, o que por si só implicaria em empregar muito menos mão de obra.

Para Galbraith os governos terão de compensar a tendência estrutural de queda no emprego na indústria pela criação de empregos úteis no setor de serviços, como educação e saúde e investimentos em infraestrutura.

Crescem as dúvidas, no entanto, se as convulsões das sociedades para se libertarem do espartilho da “racionalidade” do capitalismo contemporâneo, já quase extemporâneo, ante a falência dos nexos econômicos, caminham na direção do projeto ocidental de cidadania democrática.

O necrosamento do tecido econômico e o esgarçamento do social empurram os acuados a abraçarem a conclusão de que “o inferno são os outros”. Se os empregos foram tomados, o Estado onerado e a paz ameaçada por aqueles de nacionalidade, religião, gênero, opção sexual, raça ou ideologia diferente, a solução passa por sua exclusão.

A rejeição ao outro e a reputação das causas do mal aos que não são iguais excitam o ódio de classe, raça, religião e gênero pelos quatro cantos do globo, impossibilitando a articulação do movimento de grupos sociais heterogêneos em uma grande coalizão progressista, reduzindo a esperança de reedição de um ambiente econômico onde decisões sejam permeadas por instâncias democráticas.

Desconfiamos que o mundo não padeça apenas sofrimentos de uma crise periódica do capitalismo, mas, sim, as dores de um desarranjo nas práticas e princípios que sustentam a vida civilizada.

As presentes dores e convulsões impelidas às democracias ao redor do globo só receberão sentido histórico se forem capazes de refundar conceitos e práticas, se puderem reestabelecer nexos entre o povo, a mídia, os políticos e as políticas públicas.

Luiz Gonzaga Belluzzo*

* Economista