O elefante, o sonho e a ilegalidade numérica

Ivone teve um sonho muito estranho. Nele, uma voz repetia como um metrônomo: “Vá no 59, vá no 59”. Quando acordou, a mensagem enigmática continuou por toda a manhã a ressoar na sua cabeça: “Vá no 59”.

Tentou lembrar-se do endereço de amigos e parentes. Nenhum deles aparentava ter qualquer relação com o número misterioso. Este também não parecia referir-se à idade de qualquer pessoa próxima. Não havia nenhum local que estivesse precisando visitar com urgência e que pudesse remeter a uma possível numeração. “De onde será que tirei isso?”, pensava, enquanto tomava seu café, fazendo palavras cruzadas. Uma delas, na vertical, era “elefante”.

Quando Neide, a empregada, chegou, contando como sempre das agruras da viagem no trem da Central, ramal de Japeri, Ivone lembrou que ela costumava jogar no bicho e lhe perguntou:

– Neide, o 59, que animal é no jogo do bicho?

– É o elefante, dona Ivone. Por quê?

Ao ouvir “elefante”, Ivone teve um sobressalto, como se levasse uma descarga elétrica. Puxa, era muita coincidência: primeiro o sonho, depois as palavras cruzadas, parecia uma coisa sobrenatural. Quando relatou para Neide o acontecido, a empregada disse imediatamente:

– Ah, patroa, a senhora não pode deixar de jogar. Isso parece um aviso.

– Mas eu nunca joguei no bicho. Nem sei como se faz.

– Não tem problema: a senhora me dá o dinheiro e eu faço o jogo agora, mesmo.

Ivone catou uma nota de cinco reais numa gaveta. Sentia-se um pouco culpada de cometer um ilícito, ao fazer uma aposta ilegal: não era das piores, consolou a si mesma, afinal toda a sociedade e até as autoridades, atingidas por esquisita miopia, não são cúmplices dela? Não seria ela, Ivone, uma simples dona de casa, que ia salvar o mundo.

Neide se mandou, para fazer a aposta no ponto que ficava na esquina da padaria. Voltou toda contente, entregou o comprovante para a patroa.

Ivone passou o dia inquieta, na maior expectativa, enquanto a empregada se empenhava na faxina. Durante todo o tempo, o 59 balançava suavemente no ar, como um grande ponto de interrogação pendurado num varal. No fim da tarde, Neide trocou de roupa e, antes de ir embora, voltou ao ponto para conferir o resultado da extração do dia. Passados uns vinte minutos, chegou em casa aos gritos:

– Patroa, a senhora ganhou!

Os cinco reais tinham se convertido em quatro mil. Patroa e empregada pularam e gritaram, dançando abraçadas. Depois que se acalmaram, Ivone contou o dinheiro e separou uma parte, que tentou pôr na mão de Neide.

– Não, de jeito nenhum, não precisa, patroa.

– Faço questão, Neide. Você merece. Afinal de contas, você é que me convenceu a fazer o jogo.

– Não se preocupe, patroa – respondeu a empregada, com largo sorriso satisfeito. Eu joguei dez reais no 59 e ganhei o dobro.

* Jornalista e escritor