Medo e design

Título doido, né não? Se ainda fosse moda... Mas design é desígnio. Desenhar é destinar e, se abater é toptrends e drones substituem atiradores de elite com vantagens, mas nenhuma outra política de governo nos acerca, machadianamente, reconheço, o doido sou eu. E não reconheço o Rio, que em algum lugar, em algum momento, de medo se perdeu, de si ou de mim.

Jane Jacobs, autora da obra, do início dos anos 1960, “Morte e vida das grandes cidades”, especialmente incensada pelos críticos do urbanismo modernista, é aficionada por grandes concentrações urbanas e a diversidade que proporcionam. Ressalta também o distanciamento entre urbanistas e os desejos dos moradores, chegando a criar um pequeno manual para que se alcance a almejada diversidade.

Mesmo em Jacobs, é nítido o desejo de se obter a sensação de segurança pública. Suas propostas são, a rigor, maneiras de aumentar o controle do público pelo privado – “as janelas são os olhos das ruas” – e de identificar o quanto os urbanistas facilitam o trabalho dos malfeitores. Sua crítica sobre a abundância de espaços abertos é reveladora.

Bauman, em compensação, já nosso conhecido aqui na página nove, nos diz que vazio é uma sensação de estar: “perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos”.

Assim, erguendo muros e barricadas ou se intensificando a simples presença nas calçadas, há a constatação de que a insegurança redesenha a cidade.

O medo do escuro – infantil na essência – relembra lamparinas nas sacadas e lampiões a gás para ruas iluminar, até que, invadidas por carros, os postes se tornam mais altos, as calçadas mais escuras, o que é estranho, pois carros têm faróis, enquanto “a luz dos olhos teus”, ainda que decantada, não ilumina coisa alguma. As árvores se tornam ameaça e ruas arborizadas, ameaçadoras! Há que abater!

O shopping embala o medo para presente. Cria a eternidade do dia, sem janela e sem relógio, sem chuva, sem sol, sem estranhos: as câmeras são os olhos dos corredores.

Se levantarmos uma série histórica do uso de energia elétrica em uma cidade como o Rio, vamos descobrir que o consumo doméstico diminui, enquanto o comercial dispara: ar-condicionado e iluminação permanente, além de elevadores e escadas rolantes, explicam isso.

E, quanto mais shopping houver, menos comércio de rua haverá e, portanto, menos gente flanando: João menos do Rio.

Ouso afirmar que o sofisticado comércio de Copacabana – até há pouco, o maior subcentro da cidade – com o surgimento do maior shopping da Zona Sul, a um túnel de distância do bairro, começou a desaparecer, até que restassem farmácias. Claro que a população, como já comentamos, diminuiu assustadoramente, mas o desaparecimento de lojas e de quase todos os cinemas do bairro foi desproporcional.

É certo que a cada eleição constatam-se candidatos pasmados diante dos problemas cariocas e fluminenses, e diante do nosso esvaziamento econômico, político e até cultural... e uma população com subemprego, sub-habitação, subnutrida e, por isso, cada vez mais dependente de tudo que é público: saúde, educação, segurança e até de espaço público, única alternativa de trabalho e moradia, puxam da cartola, coelhos esquálidos e de orelhas gastas, e gritam, em lugar de shazam, turismo!

Exibem despreparo e desconhecimento da parte do planeta que lhes caberá administrar, como se estivessem diante de algo parecido, em jeitão e tamanho, com o Principado de Mônaco.

Afinal, “todos eles príncipes”, lembra Pessoa.

Cortem as cabeças, grita a Rainha, em seu País-Maravilha.

Abatam os estranhos. Comecem pelos que portam fuzis, mas propugnem que todos portem armamento.

Mas doido sou eu.

Abatido, o Rio.

* Arquiteto, Urbanista DSc