Lições sobre a derrota

A travessia foi longa e penosa. Faltou um aprofundamento dos debates programáticos. Contudo, temos que reconhecer a vitória das forças conservadoras e desejar que a grave crise de desemprego no país seja solucionada sem atingir os direitos dos trabalhadores. Neste momento há muitas avaliações precipitadas sobre o futuro de nossa democracia. Não são os fogos que saúdam o ano de 1964. Na verdade, as comemorações celebram um “voto de fúria” contra o estabilishment político que está na visibilidade de uma sociedade ressentida. “Contra todos que aí estão” ouvimos de muitos. Esse Brasil conectado com o “voto de fúria”, na verdade, indica que o século 21 analisado por Ulrich Beck (“A Metamorfose do Mundo: novos conceitos para uma nova realidade”) aqui chegou.

Consideramos que a exposição do risco para a democracia não deve estar alimentada por anacronismos históricos. Há um risco que ronda a sua continuidade democrática, mas não devemos recair no gueto do sectarismo. Precisamos compreender essa metamorfose como uma via de mão dupla. Fazer do diálogo um ponto relevante para o reencontro das forças democráticas com eleitores do campo vitorioso. Por isso, o risco da democracia não pode ser “fulanizado”. Trata-se de um risco alimentado pela profunda crise da representatividade. Contudo, sua existência dialeticamente pode fazer as instituições democráticas ficarem ainda mais próximas dos segmentos mais vulneráveis da população.

Os problemas econômicos foram deixados num campo de invisibilidade que deixou o ressentimento ganhar o corpo e as mentes. A realidade para governar impõe ao grupo vitorioso sair da “Caverna do Dragão”. A política econômica ficará mais clara para a população. E a democracia tem que ser forte o suficiente para evitar os possíveis desgastes para as medidas que virão a ser anunciadas. O campo democrático deverá estar vigilante para inibir atalhos e radicalizações que só alimentariam a hegemonia ultraliberal.

O que o campo democrático brasileiro precisa reconhecer na derrota da sucessão presidencial? Seria necessário reconhecer que o centro político e democrático foi esvaziado por uma falsa polarização. A mobilização democrática esteve por muito tempo nas mãos de setores partidários que burocratizaram as decisões. As mensagens de 2013 não foram reconhecidas em tempo para formular uma alternativa em favor da democratização do Estado de Bem-Estar. Isso gerou um “curto-circuito” nos anos posteriores ao ponto de a narrativa conservadora ganhar segmentos da juventude.

Urgente que os atores políticos herdeiros das “Diretas já” façam um balanço político sincero e que se abra para o compromisso de educar a juventude para a democracia. Tudo deve partir de convidar os jovens para a leitura da Carta Constitucional de 1988. As movimentações de “Vira Voto” no fim da campanha do segundo turno é um fato novo no ativismo político. Temos a esperança que essas mobilizações avancem no futuro para debater temas comuns à cidadania. Por exemplo, ouvir e dialogar com a população sobre alternativas para a segurança pública e ocupar as ruas para uma virada da opinião conservadora sobre esse tema.

* Mestre em Sociologia e professor de História