Reflexões feministas em tempos de ódio

Em tempos de ódio, o medo é inevitável. O sofrimento é inevitável. E quando se fala em sofrimento, impossível não remeter aos sentimentos de opressão, discriminação, estigma, que marcaram a vida das mulheres por décadas. Quando vem à tona um tema que remete ao sofrimento feminino, a associação natural feita por uma mulher estudiosa de fatos e literatura é com biografias e romances que retratam esse sentimento provocado pela opressão, pelo machismo, pela cultura patriarcal. Já foi falado aqui neste espaço sobre o único romance escrito pela americana Sylvia Plath, que cometeu suicídio semanas depois da publicação do livro. Embora seja um romance fictício, biógrafos o classificam como autobiográfico, já que as páginas de “O diário de Sylvia Plath” – este, sim, com narrativas feitas em primeira pessoa pela autora durante 12 anos da sua vida – entregam as semelhanças entre a ficção de “A redoma de vidro” e a realidade de opressão e sofrimento dos diários.

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Reflexões feministas em tempos de ódio (Foto: divulgação)

“A redoma de vidro” conta a história da jovem Esther Greenwoold, que sai do subúrbio de Boston e vai fazer um estágio numa revista de moda em Nova York. Após o retorno para casa, ela desenvolve um quadro depressivo e tenta suicídio. A partir daí é internada em hospitais psiquiátricos. O termo “redoma de vidro” é usado para ilustrar o quadro depressivo em que a personagem vive. “Para a pessoa dentro de uma redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim”, escreve ela no romance. Tem destaque na obra de Sylvia Plath o relacionamento conflituoso que teve com o marido, Ted Hughes, durante os cinco anos em que ficou casada. O peso do casamento é descrito em várias biografias da escritora e em trechos dos diários de Plath. Uma reportagem publicada em abril de 2017 pelo jornal inglês “The Guardian” revela que Sylvia Plath escreveu cartas à sua terapeuta, Ruth Barnhoudse, em que relatava agressões físicas e verbais que sofreu por parte do marido, que também era escritor.

Sylvia Plath é considerada uma escritora feminista, em um período de nascimento da segunda onda do feminismo. O romance data de 1963, época em que militantes e estudiosas, como Simone de Beauvoir, Betty Friedan e Kate Millet travam debates intensos sobre a condição da mulher, na vida pública e privada. Desde a liberação sexual, com o advento da pílula anticoncepcional, e o acesso a uma participação relativa nos campos da política e da ciência, a mulher passa a ganhar certa visibilidade nesses cenários. Esse movimento aparece no romance quando a protagonista vai a uma consulta com um médico indicado por sua psiquiatra, e sai de lá com uma caixa de pílulas anticoncepcionais. “Eu era dona de mim mesma”, escreve a autora, sobre o sentimento de poder e liberdade que as pílulas dão à personagem. Segundo Karen V. Kukil, curadora das coleções especiais do Smith College, em Massachusetts – escola de arte para mulheres, onde Sylvia Plath estudou – e organizadora de “Os diários de Sylvia Plath: 1950 -1962”, a escritora esteve exposta aos ideais feministas enquanto estudou lá.

Outras estudiosas feministas viriam depois de Betty Friedan e Kate Millet, como Joan Scott, Gayle Rubin, Judith Butler e Teresa de Lauretis, que pensaram o feminismo rompendo com dimensões binaristas. Todas elas expandiram o tema do sexo biológico aos estudos de gênero.

Essa reflexão serve para constatar que os avanços já foram feitos. Em forma de pesquisas, ensaios, romances. E, embora exista o risco de a história retroceder, os estudos não retrocedem. O que foi descoberto, debatido, já tem o seu lugar no conhecimento. Queiram os retrógrados ou não.

* Jornalista

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