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A eleição que se ganha nas redes

Jornal do Brasil DERMEVAL NETTO*

Esta eleição não vai ser vencida na rua nem na TV. Está sendo ganha, até aqui, no Twitter e no WhatsApp. Segundo pesquisas, somos 120 milhões de usuários do WhatsApp, com uma média de 30 acessos por dia. E 66% dos usuários recebem e compartilham mensagens.

A inundação de fake news e mentiras, pelas redes sociais, que vêm sendo utilizadas pelo candidato da extrema direita contra seu adversário é incalculável. Dificil de conter, como qualquer inundação. E além, afirmações contundentes do tipo... “as eleições são fraudadas”! Tudo ocorre com a passividade do TSE, que assiste às infrações como se estivessem dentro da legalidade. Aliás, o clima hoje criado por essa extrema direita violenta e intolerante tem como base as decisões do Judiciário, que a vê como parceira e aliada em suas decisões contra o PT. Foram a Lava Jato, o TRF-4, o TSE e o STF o esteio desse projeto eleitoral fascista, pelas tantas vezes em que agiram de forma parcial, inconstitucional e conivente com o sentimento antipetista, tendo como seu símbolo maior a condenação, a prisão e o impedimento de Lula.

Donald Trump ganhou a eleição norte-americana com uso do Facebook e do Twitter, com assessoria dos mesmos que assessoram aqui a candidatura fascista, como é o caso de Steve Bannon, nacionalista de extrema direita dos EUA.

Essas redes, aqui abastecidas e cada vez mais famintas pelas fake news de uma campanha odiosa, converteram-se num universo paralelo, em que seu candidato se perfila e se pronuncia já como ditador. Não vai a debates, não aceitará o diálogo, a controvérsia nem o contraditório. Muito menos aceita a própria candidatura do oponente, a quem hostiliza de forma prepotente e na linguagem mais baixa possivel, de modo a incitar a violência de seus seguidores. O PT é demonizado, em escala que amplia e maximiza de forma perversa o envenamento, já derramado sistematicamente e previamente, pelo PSDB, pela Lava Jato e pela Rede Globo.

Nas redes, sob o domínio do mal, o candidato da intolerância destila seu discurso raivoso e truculento na construção de seu projeto de poder, propondo o esmagamento do adversário e seus partidários e defendendo a tortura, a brutalidade, o racismo, o machismo, a misogenia, o desmonte do Estado e o corte dos direitos humanos e civis. Nas ruas, já se reflete o avanço da violência por parte de sua horda de adeptos fanáticos e ferozes, agentes da barbárie, vestindo as mesmas cores verde e amarelo dos golpistas do impeachment, mas que já matam e torturam os que não compactuam com o ideário fascista.

A eleição está sendo ganha até aqui nessa nova operação midiática, que se propaga no espaço do compartilhamento virtual multiplicado, e que investe pesado na manipulação do vazio da razão e do pensamento, cooptando uma maioria que é levada pela banalidade do mal, conceito da filósofa, judia alemã, Hanna Arendt, em sua teoria que buscou a compreensão sobre a adesão de muitos ao regime nazista de Hitler. Assistimos ao primado do elogio ao autoritarismo, na sedução da arrogância e da ignorância, que despreza o debate, o espírito democrático e a própria política, no sentido republicano. Nas redes, o império das fake news, da infâmia e da mentira repetida muitas vezes e que vira verdade, seguindo o conceito do estrategista nazista Joseph Goebbels.

A dificil virada para uma vitória do candidato do PT, e do campo democrático, dependerá da profunda compreensão desse universo, que se constrói, se arquiteta e se define nas redes, e do preparo para o enfrentamento nesse território onde os fundamentos éticos e morais hoje praticados estão longe do bom embate civilizatório.

Que haja tempo e capacidade reativa para conter e reverter essa inundação.

* Jornalista e professor



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