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País - Artigo

Paulo Freire, onde nos levará a boçalidade de cada dia?

Jornal do Brasil THELMA LOPES*

A boçalidade acachapante que assola o país vem distorcendo concepções basilares para a construção da equidade social, atingindo, indistintamente, diversos âmbitos da produção do conhecimento. Assim, práticas e teorias consagradas, até mesmo pela comunidade especializada internacional, vêm sendo achincalhadas por uma sucessão de falas superficiais e levianas. Como se fossem estudiosos e detentores de ampla capacidade de análise, os que têm se julgado bastiões da verdade absoluta e salvadores da pátria alardeiam o direito de interpretar determinadas correntes de pensamento sem propriedade alguma. Sem constrangimento, propagam o impublicável. Por outras palavras: tornam público aquilo que jamais deveria ser dito, tamanha deturpação, inconsistência e nocividade que representam.

Não por acaso, na área da pedagogia, frequentes impropérios são lançados cotidianamente. Por se tratar de tema capital no projeto de uma sociedade mais justa e próspera para todos, a educação precisa ser abordada com seriedade e substância. É preciso pensá-la, por exemplo, além das escolas e como exercício diário. Aprender é um processo contínuo que se dá ao longo de toda a vida. Seja nos bancos escolares ou dos bares, aprendemos algo a cada dia. Pessoas públicas também ensinam e servem de modelo. Por isso deveriam embasar seus discursos e terem ciência do alcance de suas falas. A escola é apenas um dos lugares onde é possível aprender. Os processos de aprendizagem se dão em diferentes níveis, locais e modalidades, e as diferenças não devem perfazer escala hierárquica. Há diversas formas de aprender e ensinar que podem ser complementares, o que não significa dizer que, por vezes, não haja incompatibilidade e conflito entre elas.

Destaca-se que, na realidade brasileira, o convívio no ambiente escolar é especialmente importante, uma vez que além de se constituir como espaço de construção e troca de conteúdos, é também local de convivência social. E, muitas vezes, o lugar onde crianças e adolescentes fazem sua única refeição do dia. Dessa forma, com todas as qualidades que a modalidade “educação a distância”, por exemplo, pode apresentar, se desenvolvida em circunstâncias específicas, seria temeridade defendê-la para os anos iniciais de formação. Se em nível de graduação, a educação remota favorece aqueles que habitam distante dos centros urbanos, e que, portanto, não teriam condições de comparecer à universidade diariamente, o mesmo não se aplica à educação básica, quando os processos formativos são mais importantes que os informativos.

O convívio em ambiente escolar nos primeiros anos é essencial para o aprendizado de regras de sociabilidade, respeito ao próximo, compreensão das diferenças, desenvolvimento de projetos em equipe e fortalecimento da personalidade. Tais faculdades são primordiais na capacitação da criança para aprender qualquer disciplina e, principalmente, para desenvolver o espírito criativo e cidadão, que, em última análise, deveria ser o principal objetivo das ações educacionais. No cenário político desolador no qual vivemos hoje, um de nossos brasileiros mais ilustres tem sido comentado de forma inadequada, até mesmo tosca. Trata-se do pedagogo Paulo Freire. Sim, o autor defende educação politizada, o que não significa dizer, necessariamente, partidária. Compreendê-lo como defensor estrito de determinada ideologia, não apenas seria um equívoco, como também apequenaria o pensamento libertário de Freire.

O autor postula, em suas próprias palavras, que “ninguém educa ninguém”, e que o ato de aprender se dá na interação com o outro. Integram seus preceitos, a noção de que ninguém ignora ou, tampouco, conhece tudo. Por isso, aprendemos sempre. O autor pregou a contextualização de conteúdos, a valorização dos diferentes saberes e defendeu que o amor e a alegria devem fazer parte das etapas que compõem a aprendizagem. Para Freire, os processos educativos implicam em busca na qual o homem deve ser sujeito de sua própria trajetória, e não o objeto dela. Daí a ideia de que ninguém educa ninguém. Mais que partidos, Freire defendeu e construiu uma pedagogia transformadora e celebrada no mundo todo, na qual busca a justiça social. Se Freire fosse mais aplicado em nossas escolas, certamente haveria menos boçalidade neste país e nos ajudaria a responder o título que abre este texto... E isto vai além, muito além de qualquer partido.

* Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciências



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