Diário de guerra e paz

Primeiro dia, segunda-feira, 8 de outubro, o dia seguinte.

A esperança de que os jornais conservadores não iam aderir no segundo turno tão desavergonhadamente à barbárie, ao sacrifício do Brasil no concerto das nações civilizadas, não se confirma, pelo menos por enquanto.

O texto ainda é o mesmo, tendencioso e falso. Lula continua citado na notícia central da “Folha de São Paulo” como “preso por corrupção e lavagem de dinheiro” (palavras que se seguiram sempre a seu nome em todo o primeiro turno, como estratégia para minar seu candidato).

Simples assim, à propósito de uma prisão polêmica, nacional e internacionalmente. A justificativa é que ele foi condenado em primeira e segunda instâncias. Esse entendimento não é pacífico: existem textos, análises, pareceres de centenas de juristas, aqui e no exterior, que contestam os termos da condenação, a falta de provas, ou o juízo dos dados arrolados como prova, questões de direito e de jurisprudência. Nada disso é levado em conta. E, claro, nada sobre a Justiça tendenciosa. Uma lista interminável de corruptos surpreendidos em atos de corrupção comprovada... mas todos impunes, protegidos por essa mesma Justiça que prendeu à jato Lula, por reformas em um apartamento que seria para ele, mas onde ele nunca morou um minuto, reformas que, aliás, não foram feitas.

Tudo isso sem falar no silêncio sobre o que se diz e escreve no estrangeiro. Talvez só na imprensa brasileira Noam Chomski seja desconsiderado. Tido em todo o mundo como um dos mais importantes cientistas políticos da atualidade (filósofo, linguista), visitou o “presidiário” e em seguida escreveu um texto primoroso, que você só encontra fora da imprensa tendenciosa. Esta prefere os cientistas da casa, mais chongas, menos Chomsky.

O texto inteiro da “Folha” é, de cabo a rabo, tendencioso. No espirito geral e em detalhes factuais. Por exemplo: mostra Bolsonaro com 46,3% dos votos e Haddad com 29%. Eles estão colocando 0,27% a mais de votos para Bolsonaro e tirando 0,28% de votos de Haddad: Bolsonaro teve 46,03% e Haddad 29,28%. É uma diferença de mais de 0,50% de votos a favor de Bolsonaro. Isso significa mais ou menos toda a votação de Boulos, isto é, uns 600 mil votos. Não é nada? É uma amostra da imprensa tendenciosa que temos e de que lado ela está.

Que ela esteja do lado do mercado, do neo-liberalismo (que está afundando a Argentina)... está bem. Que ela estivesse ao lado do Alckmin, do Meirelles, do Amoedo, se um deles tivesse ido para o segundo turno... está bem. É a posição de uma disputa ao menos civilizada. Mas que ela esteja, para defender suas posições, ao lado de um defensor confesso da tortura (“voto em nome do Brilhante Ustra!”), de um fomentador de um banho de sangue (“tinha que ter matado uns 30 mil”), de um incentivador de criminosos (para não ir longe, o assassino, que matou ontem o chefe de capoeira baiano Moa do Katende), de um medíocre que só se projetou graças a um discurso de extrema violência que seduziu o que há de pior no instinto humano e depois se alastrou por culpa da desinformação da maioria da sociedade, é uma vergonha e um crime.

Expliquem-se depois com os seus, se ainda querem ter algum respeito da imprensa internacional. Justifiquem, se é possível, para o “Le Figaro”, o jornal conservador francês, porque apoiaram “le petit Hitler tropical”.

* Diretor e autor teatral, ator e apresentador