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País - Artigo

Um dos principais obstáculos ao desenvolvimento

Jornal do Brasil TARCISIO PADILHA JUNIOR*

A consolidação da democracia, em todos os Estados modernos, esteve fundamentalmente vinculada ao desenvolvimento de uma classe média que então se tornou o centro de gravidade da vida política. A oposição binária que permitiu a estruturação da vida política de todas as democracias modernas, desde a Revolução Francesa, oposição entre esquerda e direita, perdeu assim parte de sua pertinência.

Se a esperança no indivíduo faz o mundo se mover desde o Renascimento, ao mesmo tempo é impossível sonhar com uma comunidade mundial construída pelo processo de agregação individual, em que aparentemente cada consumidor poderia naturalmente se juntar aos circuitos da economia global.

Confrontado com uma globalidade na qual não se reconhece, o indivíduo é tentado a procurar em comunidades particulares a possibilidade de escapar à simples imposição de escolhas individuais. Fato é que a globalização nos obriga a retomar a reflexão sobre a questão essencial da liberdade: sobre seus fundamentos, sobre as instituições que garantem seu exercício, sobretudo sobre seus limites.

Há um descompasso intolerável entre a natureza global das questões que determinam nosso futuro e o caráter particular das comunidades com as quais nos identificamos. A crise financeira de 2008 revelou os perigos que se encerram na redução da comunidade política a uma comunidade de mercado.

Trabalhar na construção de uma comunidade de comunidades, calcada na negociação entre comunidades políticas diferentes e em princípios comuns que as tornem compatíveis entre si, substituindo conflito pela cooperação e o choque de soberanias pela interdependência organizada, é possível.

Um dos principais obstáculos ao desenvolvimento é a fragilidade das comunidades políticas, devastadas por desigualdades, desestruturadas pelo choque da economia moderna nas economias tradicionais. Está em jogo a extensão da solidariedade: em nossa sociedade e entre sociedades diferentes.

Este mundo onde o poder se dilui em pequenas decisões, que avança a pequenos passos medidos por ajustamentos sucessivos, dissolve as grandes questões, para que se tornem questões particulares. Vantagens econômicas, exigência moral, tensões sociais, todas devem ser igualmente levadas em consideração.

A sociedade moderna não é um mecanismo implacável, portanto não cria nenhuma forma de automatismo.

* Engenheiro



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