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Se o passado não tivesse asas

Jornal do Brasil VAGNER GOMES DE SOUZA*

Tomo emprestado o título do romance de Pepetela para minhas observações referentes ao cenário político que está em curso. A mobilidade social que os personagens principais da ficção angolana demonstram se assemelha à recente ascensão social de milhões de brasileiros conquistada no lulismo. Além de uma nova classe trabalhadora (mesmo que precarizada), muitos teriam saído da miséria num processo que poderia ter inserido o país em baixos índices de pobreza em duas décadas.

A mobilidade social pode levar a dois caminhos: os grupos sociais que ascendem, rompem com as suas origens, desejando continuar essa mudança se aproximando das classes sociais mais estabilizadas, ou desejam manter vínculos com as camadas populares no sentido de garantir uma melhor redistribuição da renda. Não havendo um ator político à esquerda que mobilize as bases sociais para conduzir essa transformação na sociedade, nosso país entrou num processo que o sociólogo Luiz Werneck Vianna chama de “modernização sem moderno”.

Os caminhos e descaminhos cruzados da gestão de Dilma permitiram a reação das classes conservadoras diante da fraqueza das convicções produtivistas numa fração da burguesia. O afastamento pela via do impeachment foi uma tentativa de levar o jogo político para a “soma zero”: as camadas dominantes ganhariam tudo enquanto as classes subalternas começariam a perder direitos consagrados na Carta Constitucional de 1988. O aprofundamento da crise econômica com um desemprego elevado viabilizou a transição da massa de trabalhadores para um processo de reversão de seu posicionamento na renda nacional.

O bloco político conservador não conseguiu se impor como grupo hegemônico em dois anos de afastamento da presidente Dilma, graças à resistência do campo democrático para garantir a viabilidade das eleições deste ano. As tendências mais extremadas de viés autoritário tiveram que “engolir” uma pauta econômica liberal radical como se o fantasma de Pinochet fosse a bússola política para a elite econômica nacional. Por outro lado, um campo mais pragmático das camadas dominantes se articulou com as bases da velha política do fisiologismo para dar sequência para um programa de liberalismo social. Nesse cenário, a divisão dessas duas tendências é exposta na disputa que travam no Estado de São Paulo como “fortaleza política” do conservadorismo nacional.

A democracia atravessa uma estreita ponte nessa campanha eleitoral na qual os formadores de opinião do campo democrático aos poucos se manifestam com lições do passado. Sugiro essa passagem do filósofo Walter Benjamin no artigo “Sobre o conceito da história”, segundo o qual “a luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais”. O campo democrático deve mobilizar a memória das classes subalternas que recentemente voltaram a conviver com o subproletariado num embate pelo fortalecimento das instituições democráticas em conjunto com a organização da sociedade na periferia das grandes cidades.

* Mestre em Sociologia e professor de História



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