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País - Artigo

Candelabro de cristal

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN*, bahadian@jb.com.br

Hoje não devo conjugar o verbo votar. Quem fala são as urnas. Aproveitem. Nem sempre foi assim. E pode ser que… melhor deixar pra lá.

Num tempo muito remoto da minha infância, no dia das eleições, toda a família almoçava junto. Geralmente macarronada. Vinham de longe, tios e primos. Minha prima, de tranças, me convidava para comer sapotis na árvore do quintal. Ela era mais ágil do que eu. Em tudo. Estudava no Bennett , uma escola só de meninas, de imensa reputação. Aprendeu, antes de mim, a resolver equação do segundo grau. Me chamava de “Bobão”, porque aos domingos eu ia à missa e ela à praia. Naquele dia – na eleição de Getúlio – depois do almoço acompanhamos a irmã dela e o namorado numa volta por Copacabana. Me lembro que descemos a Barão de Ipanema em direção à Atlântica. Na esquina da Av. Nossa Senhora, acabara de ser inaugurada a Confeitaria Colombo. Ela quis, porque quis, comer um doce. Ficou encantada com a confeitaria e sentou-se na cadeira empertigada, a olhar disfarçadamente para as outras mesas, para o candelabro que parecia de cristal e comentou que um dia gostaria de ter um candelabro daqueles em sua casa. Achou os espelhos incrustados nas paredes uma boa maneira de vigiar os casais sentados à volta. Falava e mordia o mil-folhas, e o açúcar e o creme escorriam por seus lábios, que delicadamente lambia com uma língua vermelha como morango. Me perguntou o que queria ser quando crescesse. Fiquei sem jeito, porque só havia pensado em ser bombeiro, fascinado com os caminhões Magirus que até hoje existem no quartel ao lado da estação Cantagalo do metrô. Mas ela nem esperou resposta. “Quero ser piloto de avião”. Disse-lhe que nenhuma mulher poderia pilotar. Ela me olhou bem nos olhos e disse a frase fatal: “você sempre vai ser Bobão”.

Fomos crescendo, como cresciam os primos na década de 50, no Rio. Às vezes, íamos a uma matinê no Rian ou no Roxy e comíamos hotdog no Bob’s da Dias Ferreira.

Nos anos 60 entramos em faculdades. Ela, na Praia Vermelha. Eu, na PUC. No dia das eleições de Jânio Quadros já éramos adultos e votamos juntos. Nossa urna ficava numa escola do Lido e caminhamos pela praia. Era um dia de primavera esplêndido. Me contou que havia conhecido um colega no Diretório da Faculdade. Falava encantada do rapaz e, ao mesmo tempo, criticava minha falta de interesse pela política estudantil. “Em quem você vai votar?”. Respondi, sem medo: “No Jânio”. Me olhou com aqueles olhos que eu havia descoberto serem verdes e que me provocavam um crescente tremor. “Está vendo”, sorriu: “você continua o Bobão de sempre. O homem é o Lott”. Meses depois, quando Jânio renunciou, me chamou para um papo no Zepelim. Estava mais linda do que nunca, de jeans e rabo de cavalo. Ficamos falando sobre a tristeza da política brasileira, o veto dos militares à posse do Jango e o risco de guerra civil. Naquela tarde me disse que havia acabado o namoro. Não comentou a razão. Fiquei com a impressão de que o namorado teria feito uma babaquice. Arrisquei: “o homem que te deixar é um panaca”. Ela sorriu e me chamou de Bobão. Me afagou.

Passamos muitos anos sem votar. Jogamos rolhas e bolas de gude em patas de cavalos. Participamos de mil passeatas e choramos de alegria após a passeata dos 100 mil. Estivemos no comício das Diretas Já. Nos protestos contra a morte absurda do Vlado. Não votamos no Collorato. Achávamos que, depois de tantos anos, jamais voltaríamos a ter medo. E vemos, perplexos, o ódio que nos divide. E a curva que nos leva a becos e porões. Hoje, vamos votar juntos de novo. Estamos assim há 65 anos. Nossos filhos, genros, noras e netos virão almoçar. Eu quero macarronada. Ela, um cherne. À noite, aguardaremos as apurações. Sentados diante da TV, corremos o risco de ver uma comédia pastelão. Buzinas poderão ser trombetas do apocalipse. Provavelmente, ouviremos “O mundo é um moinho” com Cartola. Resta um consolo: nossa casa não tem candelabro de cristal e ela nunca pilotou.

* Ex-embaixador do Brasil na Itália (e-mail: bahadian@jb.com.br)



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