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O voto de fúria no Rio de Janeiro

Jornal do Brasil VAGNER GOMES DE SOUZA*

Nas análises relacionadas ao perfil do voto no Estado do Rio de Janeiro há diversas opiniões sobre as motivações para a consolidação de um eleitorado que faz a opção por uma candidatura de perfil de extrema-direita. As ilusões de um Rio progressista caem por terra para aqueles que desconheciam da força do “lacerdismo” na capital federal (depois Estado da Guanabara) nos anos 60. O artigo de Octávio Costa, “A outra margem do Rio” (Jornal do Brasil, 24/09/2018) é uma preciosa colaboração para compreender as raízes históricas desse conservadorismo em nossa política.
Nos dias atuais, sugerimos que a consolidação do extremismo de direita no campo do voto conservador no estado esteja relacionada à gravidade da crise da representatividade, o que seria a expressão do “voto de fúria”. No Rio de Janeiro essa crise se manifestou de maneira mais profunda do que em outras unidades federativas do Centro-Sul. O professor André Singer apresentou alguns indícios não conclusivos sobre essa singularidade no livro “O Lulismo em Crise”.
No livro, Singer faz referência ao perfil dos manifestantes nas jornadas de 2013 no estado que tinha uma significativa participação popular (renda inferior a cinco salários mínimos). Faltam outros estudos que detalhem esse perfil, mas observamos que uma juventude inserida ao mercado de trabalho de forma precarizada participou de forma mais ativa das manifestações no Rio de Janeiro. Nesse estado a identidade classista não está plenamente organizada como em São Paulo. Em nosso estado, a “Nova Classe Trabalhadora” sofre muitas influências da classe média tradicional.
A classe média tradicional adquiriu uma força exponencial na formação da opinião nesses últimos anos sempre alimentada pelo noticiário desqualificador da política. A negação de todos que estariam no exercício do Poder Executivo à medida que a tendência a uma fragmentação nas eleições legislativas se acentuou com o benefício das candidaturas vinculadas ao clientelismo. Criou-se uma lógica mais favorável ao conservadorismo pela via da procura de uma figura política que representasse um “voto de fúria”.
No decorrer desses últimos cinco anos, muitos escândalos foram se acrescentando para que houvesse a ascensão do voto de matriz autoritária. O voto de fúria tem muita vinculação com as características do populismo de direita a partir da consolidação do sentimento anti-político. Os desdobramentos da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro colocou em ampla exposição o quanto, por seguidos anos, um grupo político se enriqueceu através do controle do governo estadual. Esse grupo teve votações surpreendentes nas eleições de 2006/2010/2014, ou seja, a sociedade majoritariamente se sentiu “traída”. A fúria é alimentada pelo jornalismo-espetáculo sem aprofundar alternativas. A narrativa dos meios de comunicação vinculados aos grandes eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas) deixou de ser favorável para logo adotar uma narrativa de ressentimento. Essa linha consolida a simpatia pelas soluções autoritárias. O voto de fúria não permite aprofundar o debate político ameaçando as instituições democráticas.

* Mestre em Sociologia e professor de História



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