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Eleições numa hora dessas?

Jornal do Brasil EMIR SADER*

As eleições começaram a fazer parte da minha vida quando eu ainda era pequeno. Meu tio, Azis Simão, membro do Partido Socialista Brasileiro, me levava junto com meu irmão para montar uma banquinha e fazer propaganda e distribuir cédulas, essenciais naquela época para votar. O candidato a presidente era João Mangabeira; o candidato a governador de São Paulo era Prestes Maia. Distribuíamos cédulas também para deputados, me recordo que um deles era Alipio Correia Neto.

Em seguida pude presenciar algumas das cenas mais hilariantes das eleições brasileiras, com os debates entre Jânio e Ademar de Barros, concorrendo para o governo de São Paulo. Vieram, depois da morte de Getúlio, as eleições presidenciais de 1955, com a eleição de JK; e as de 1960, com a eleição do Jânio.

Quando eu me preparava para votar, pela primeira vez, para presidente do Brasil, em 1965, veio o golpe um ano antes e terminou com o meu barato. Só fui votar para presidente mais de 20 anos depois, em 1989, no Lula. Meu filho, que tinha 23 anos menos do que eu, votou comigo, pela primeira vez para presidente.

No exílio pude incorporar às minhas vivências eleitorais, pleitos no Chile, na Argentina, na Franca, na Itália.

A eleição presidencial de 1989 foi uma das mais emocionantes, justamente pelo desempenho de Lula, pelas caravanas da cidadania com que ele percorria o Brasil que, na moita, foram construindo um apoio popular surpreendente, que o levou ao segundo turno.

Um líder sindical, imigrante nordestino, quase se elegia presidente do Brasil.

As eleições se tornaram uma prática regular na democracia brasileira com seus ciclos de eleições nacionais e estaduais a cada quatro anos, alternadas por eleições municipais. Vivemos sete seguidas, coincidindo sempre com os mundiais de futebol, sem que se interrelacionassem.

Até que houve a quebra de 2016: reeleição de Dilma, questionamento do resultado, a desestabilização e a montagem do golpe. Questionamento que, agora, Tasso Jereissatti considera que esteve na raiz dos erros graves cometidos pelos tucanos e que podem ir levando à sua extinção. Era um tipo de questionamento que não existia mais desde a redemocratização. E que desatou um processo catastrófico para o país.

Agora voltamos a votar para presidente. Teremos de novo a saudável sensação de ter um presidente eleito pelo voto popular. Mas a situação tornou-se tão periclitante, que o presidente do STF se viu obrigado a afirmar que “quem ganhar, leva”. Quando é necessário dizer isso, é porque se perdeu a tradição de quem ganha, leva.

Será bom deixar esses cinco anos para trás. Como o próprio Barroso diz, agora, um pouco tarde, o impeachment não fez bem para o país. Mas nem Tasso Jereissati nem o Barroso tiram consequências dos seus tardios arrependimentos. Parece mais desabafo, para tentarem não passar à historia de forma degradante.

Vamos votar então. De forma estranha, porque na urna eletrônica primeiro nos pedem o candidato para deputado federal, temos que marcar quatro números, depois cinco algarismos para o deputado estadual, aí votos para dois senadores, para governador e só aí temos o direito do mais importante: votar para presidente do Brasil (o nosso é o único país em que os analfabetos têm direito a voto, mas primeiro tem que se alfabetizar, para poder manejar os números para votar).

Vou gostar, vou sentir de novo que os destinos do país estão nas mãos das pessoas, dos cidadãos, dos brasileiros. Vou sair com um sentimento bom. Não só por eleger um presidente por via democrática, mas por desalojar aqueles que desgovernam o país desde 2016.

Eleicoes numa horas dessas? Justamente é o que o Brasil mais precisa hoje.

* Sociólogo



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