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Filme de terror

Jornal do Brasil RUBEM MAURO MACHADO*

Estrangeiros estão interferindo em nossa eleição presidencial. Para entender essa história é preciso começar falando de um filme de terror: passou em agosto no canal “Curta”. Naquela noite custei a dormir. Dirigido por Thomas Huchon, o documentário “Driblando a democracia – Como Trump venceu” joga luz sobre a última eleição nos EUA – e deixa qualquer democrata de cabelo em pé. O próprio conceito de democracia, alerta, está em perigo.

O filme mostra de que modo as modernas tecnologias digitais, com suas ferramentas de busca, como Google, e redes sociais, como Facebook e Twitter, possibilitam acumulação prodigiosa de informações sobre a população: sobre nós. Isso dá imenso poder a um pequeno grupo de pessoas, permitindo todo tipo de manipulação, sem que desconfiemos de nada.

O Frankenstein do filme não é Donald Trump, mas um desconhecido, Robert Mercer. Bilionário, figura que se move nas sombras (é difícil conseguir até imagens dele), colecionador de metralhadoras e iates, fez fortuna como empresário de tecnologia da informação. Proprietário de empresa que acabaria nas manchetes, a Cambridge Analytica (CA), ele é hoje a eminência parda do governo Trump (presidente de fato?), concentrando imenso poder político, mesmo sem cargo oficial e sem ter recebido um voto. Doou mais de US$ 15 milhões para Trump. Mas sua contribuição realmente decisiva foi o aporte de dados e algoritmos para manobrar o eleitorado, até a vitória surpreendente. Isso não foi de graça. Em julho de 2016 o bilionário assumiu o controle da campanha, chefiada oficialmente por um homem de sua confiança, Steve Bannon. Depois da vitória, Bannon tornou-se assessor especial da Casa Branca, até se desentender com seus mentores e ser demitido. A filha de Mercer, Rebekah, organizou a burocracia do novo governo e continua dando as cartas nos bastidores, assim como outros próceres da Cambridge.

De que modo os marqueteiros arrecadaram dados de 87 milhões de usuários do Facebook? Por meio de testes de personalidade supostamente inocentes, com perguntas do tipo “Qual seu super-herói favorito?”, e pela compra de informações pessoais, inclusive em empresas de cartão de crédito. Mas o grosso foi (continua a ser) fornecido espontaneamente por nós mesmos, nas redes sociais. Segundo o expert Michal Kosinski, que criou um sistema de algoritmos para o Facebook, graças aos likes (curtidas) que os usuários dão, é possível fazer o retrato preciso de cada um. Kosinski gaba-se: de posse de 300 curtidas pode conhecer uma pessoa com mais precisão do que o cônjuge dela. Não é assustador?

Foi possível estabelecer um quadro com 32 tipos de personalidades de eleitores, sendo os mais neuróticos ou angustiados os mais suscetíveis de acreditar em notícias falsas (fake news). Os algoritmos permitiram determinar em que colégios eleitorais havia mais indecisos. A CA fez então um diagnóstico: não havia como Trump ganhar no voto popular. Mas se levasse os delegados de três estados indecisos, Michigan, Pensilvania e Wisconsin, poderia vencer a eleição. Na semana decisiva, Trump visitou os três. Deu certo: ganhou por 11 mil votos em Michigan, por 43 mil na Pensilvânia e por 23 mil em Wisconsin. Perdeu por 3 milhões de votos para Hillary no país – e levou a taça. Como observa uma analista no filme, 70 mil eleitores decidiram pela nação.

O fator decisivo não foi a retórica trumpiana. Identificado cada indeciso, este recebeu em sua tela mensagens exclusivas, adequadas a seu perfil e apagadas depois de horas sem deixar rastro, direcionando seu voto e sem que soubesse que somente ele podia vê-las. Os marqueteiros identificavam, por exemplo, que o eleitor indeciso era a favor do porte de armas. A mensagem perguntava se sabia que Hillary iria privá-lo de sua pistola ou fuzil. Como diz a analista, isso frauda a democracia, onde os debates precisam ser claros e abertos e ser conhecida a origem das propostas. Do contrário, somos induzidos de maneira subliminar a votar do mesmo modo que somos levados a comprar um sabonete.

A parte que nos toca: o marqueteiro-mor de Trump, Steve Bannon, anunciou que está assessorando a campanha de Jair Bolsonaro. Isso levanta questionamentos: o que leva estrangeiros a interferir na campanha presidencial brasileira? Que tipo de assessoramento presta Bannon? Que interesses e acordos estão por trás disso? Que meios e métodos são utilizados? O recente ataque de hackers à página “Mulheres contra Bolsonaro” faz parte disso? Perguntas que deveriam despertar a curiosidade imediata de autoridades, partidos políticos, da mídia e dos eleitores em geral.

* Escritor



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