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Coluna da Segunda - A onda antifascista

Jornal do Brasil OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

Ainda emocionado com a festa pela democracia que tomou conta do país no sábado, acordei ontem pensando em minha tia Tiziana Bonazzola, sensível pintora italiana que se radicou no Brasil nos anos 50. Natural de Varese, no norte da Itália, Tiziana, na juventude, participou da Resistência (seu irmão mais velho Quinto também) contra o regime nazifascista, durante a Segunda Guerra Mundial. Sua atuação, heróica e destemida, está descrita no livro ‘La bicicleta nella Resistenza’, publicado em 2008, ainda sem tradução para o português. Sob risco de tortura e morte, ela levava as mensagens trocadas entre os dirigentes partisans e às vezes armas no cesto de sua bicicleta. Certa feita, teve a casa invadida por fascistas que interrogaram seu pai. Quando os viu se aproximar, conseguiu queimar jornais e documentos. Também escapou de ser presa na academia de arte que frequentava. Desde garoto, acostumei-me a ouvir minha tia falar da época da guerra e defender, com voz firme, a liberdade de expressão e a democracia, como valores universais. O livro que me deu com sua história e de seus companheiros de luta traz a seguinte dedicatória: ‘Uma lembrança dos tempos da guerra, quando ainda se esperavam tempos melhores e soluções para a vida dos homens. Um abraço e afeto de Tiziana”.

Ao ver milhares de pessoas na Cinelândia manifestando-se contra Jair Bolsonaro, lembrei-me da luta dos irmãos Bonazzola. Sou editor de Política do JB e procuro praticar um jornalismo imparcial e independente, respeitando a tradição centenária desse grande jornal. Mas me sinto à vontade para afirmar, com todas as letras, que aqui em casa o exemplo de tia Tiziana está sempre presente e o fascismo não tem vez. É inconcebível que o Brasil que levou seus pracinhas à Europa para lutar contra as tropas de Hitler corra o risco de se deixar levar pelo canto homofóbico, racista, misógino e antidemocrático. O Exército brasileiro lutou pela democracia na Itália e assim é lembrado até hoje pela pessoas mais velhas em cidades daquele país, como Montese, Monte Castelo, Castelnuovo e Fornovo di Taro. Ao fazer seu discurso radical, em que põe em dúvida até mesmo o resultado das eleições, Bolsonaro fala por si. Se ele não respeita as regras da Constituição, não creio que sua opinião perigosa e tresloucada tenha apoio dos altos comandos militares. O Brasil de hoje não é compatível com conspirações e quarteladas. Esse tempo passou. Ficou para trás, nas décadas de 50 e 60 dos livros de história.

Fala mais alto hoje o espírito democrático que levou multidões às ruas de 62 cidades brasileiras, sem falar dos atos no exterior, em centros como Londres, Nova Iorque, Paris, Berlim e Lisboa. Se o movimento #EleNão tinha como alvo a candidatura de Jair Bolsonaro, o que se viu foi a união de pessoas dos mais variados grupos políticos e sociais contra o pensamento reacionário que alimenta a campanha do ex-capitão. Na Cinelândia, no Rio, e o Largo da Batata, em São Paulo, por exemplo, reuniu-se gente disposta a mostrar que não há lugar, no Brasil de hoje, para qualquer tipo de discriminação. Hildegard Angel afirmou, com toda razão, que as imagens lembraram os tempos da campanha das Diretas Já. Sem dúvida, o clima era de solidariedade, com todas as diferenças postas de lado. Havia, sim, bandeiras do PT, PDT, PSTU e PSOL, e também políticos, como Manuela D’Ávila, Marina Silva, Kátia Abreu e Gilberto Carvalho, o fiel escudeiro de Lula. Mas o que contagiava era o desejo de transmitir um recado muito maior: somos um país democrático, onde não existe lugar para o fascismo.

O recado foi dado. Cabe, porém, um alerta ao PT. Para vencer no segundo turno, Fernando Haddad precisará de muito mais do que os prováveis 25% do primeiro turno. Vai precisar exatamente da união que viu nas ruas no sábado. Por isso, é estranho que já haja petista falando de vetos a partidos e até mesmo a pessoas. Espantado com o comentário de que seu nome não seria aceito para comandar a área de comunicação num eventual governo Haddad, o jornalista Nunzio Briguglio — meu amigo de longa data — avisa que não tem esta intenção, porém não abre mão da amizade de Haddad, com quem trabalhou no ministério da Educação e na prefeitura de São Paulo. Que as alas mais ortodoxas do PT ponham os pés no chão: não é hora de dividir, mas de somar.



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