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País - Artigo

A Lição da The Economist

Jornal do Brasil FABIANO LEAL*

A capa da prestigiada revista britânica “The Economist” causou furor em meio aos partidários de Jair Bolsonaro. Para o semanário, o líder até aqui da corrida à Presidência seria uma clara ameaça ao Brasil e, por tabela, a toda a América Latina. A matéria enfatiza que Bolsonaro é mais um nome a engrossar a onda crescente de políticos de extrema direita, como Donald Trump nos EUA a Putin na Rússia. A posição da revista contraria a visão muito difundida entre seus seguidores que veem em Bolsonaro um representante do liberalismo.
Ledo engano, diz a revista, que desde sua fundação, em 1843, em Londres, se notabilizou por defender a causa do liberalismo clássico. Ao assumir bandeiras como a defesa do livre comércio, das liberdades individuais e do império da lei; sem que essas se deixassem esclerosar, pois tais perspectivas continuamente se modernizaram à luz do passado recente, terminaram por fazer da “The Economist” um dos fóruns mais influentes do debate político contemporâneo. No balanço crítico, o resultado é que Bolsonaro não é um liberal. A defesa do liberismo tem sido tão rala quanto repleta de equívocos. Seja pela recente filiação do candidato a esse credo, ou por ter construído sua carreira política como representante, na Câmara, dos interesses das Forças Armadas, em torno de ideias antidemocráticas. Assim, Bolsonaro tem sido um adversário dos direitos das mulheres e de minorias, enquanto nutre um fervor sem limites pela ditadura militar, ao ponto de alçar à condição de herói um notório torturador, além de pregar soluções simplistas como a liberação do porte de armas como combate à violência. E como espectro subjacente a essa mirada está que os critérios de legitimação políticos deixam de se guiar pelos pressupostos comuns à democracia, preferindo um retorno à verdade única de algum “evangelho”.
Daí não ser mero detalhe a preocupação da revista com o caráter altamente salvacionista da mensagem de Bolsonaro. Nisso, o bolsonarismo está mais próximo do petismo do que gostaria de admitir. A saída da grande crise de 2013, se quer agora, infelizmente, tão personalista e avessa às instituições, senão, deveras similar ao comportamento dos governos petistas.
Nesse sentido são mais do que razoáveis os questionamentos acerca do programa liberal do candidato da extrema direita. Recordemos que o termo extrema direita não significa a adoção de uma prática liberal in extremis. Ao contrário, trata-se de advogar toda uma linguagem política antiliberal, cuja principal vocação na economia consiste em advogar poderes cada vez maiores ao Estado, enquanto na política engendra uma concentração personalista de poder, e no social fomenta a lógica permissiva de bodes expiatórios, manifesta por um nacionalismo negativo, isto é, xenófobo, que elege alguns grupos como perigosos obstáculos à realização do senso de plenitude coletivista. Tanto a epistemologia como a história nos desautorizam a falar de qualquer experiência bem-sucedida de liberalismo cum conservadorismo fundamentalista. Tratam-se, por princípio, de filosofias antagônicas.
Nossa visão do liberalismo se dá aos fragmentos e, infelizmente, reduzida à esfera econômica. Esquece-se que a realização de seu primado econômico não pode ocorrer sem observar os aspectos políticos do pensamento liberal. E nisso é fácil constatar quanto o costume político brasileiro tem sido refratário a uma razão liberal-democratizante, inclinada que é ao privatismo iliberal da cultura patrimonialista. Assim, a atual voga da extrema direita no Brasil esconde em parte muito do desejo de permanência de uma modernização sem a realização da modernidade, ancorada em um crescimento econômico desacompanhado de avanços robustos no campo político, consoante, principalmente, a maior representatividade no jogo democrático.
Enfim, como bem sabe a “The Economist”, o liberalismo é um todo complexo. Não basta nos concentramos apenas no seu discurso econômico. Tão importante quanto isso é saber que nem todos os problemas da sociedade se resumem à economia. A superação da crise que não se concentra apenas na economia, mas também é cultural, ética e social, consiste, como afirma a revista, “em curar a democracia”. Em reconhecer que o progresso econômico, a despeito dos casos que possam ser descritos como anômalos, exige e reconhece a importância da síntese liberal-democrática. O desafio primeiro, portanto, não é de implantação, mas de aculturação: de chegarmos a um Estado e mercado reconhecidamente liberais porque fruto de uma sociedade verdadeiramente democrática.

* Historiador



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