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País - Artigo

Eleição e consciência cidadã

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O grave quadro de pobreza e exclusão social em nossas principais cidades representa um gatilho capaz de detonar convulsões incontroláveis. Moradias precárias, assentamentos irregulares, áreas sem saneamento básico, transporte de massa deficiente, desemprego ou subemprego formam os diversos guetos urbanos de segregação social no país.
Em muitos casos, esses territórios, marginalizados pelo poder público, se interpenetram em áreas formais da cidade dotadas de toda infraestrutura. Riqueza e pobreza convivem na fronteira tênue de uma guerra civil não declarada. O enfrentamento entre os atores dessa tragédia urbana, bandidos e polícia, há muito não representa mais a natural repressão ao crime. Ações armadas de ambos os lados ceifam vidas de crianças e trabalhadores. Da promiscuidade entre traficantes, milícias e agentes públicos aprofunda-se uma estúpida lógica do confronto que coloca em cheque o Estado de Direito e gesta a barbárie.
Naturaliza-se a violência que, latente na mente do cidadão comum, como em toda a sociedade, radicaliza as disputas políticas. No plano nacional secundariza-se o debate propositivo, polarizando o processo eleitoral entre dois campos com projetos de poder ideologicamente antagônicos, inviabilizando, assim, como as últimas pesquisas indicam, uma 3ª via política pela centro-esquerda ou centro-direita, como seria o desejo do establishment. O confronto eleitoral torna-se, pois, visceral, cru, sem margem para posições intermediárias.
Cidades são espaços políticos propícios à construção de uma nova ordem democrática, socialmente inclusiva, uma vez que em sua própria diversidade e multiplicidade cultural reside seu poder crítico e transformador da sociedade brasileira contemporânea. O futuro de nossas cidades é o futuro do Estado Nacional – um determina o outro. O conceito de construção e reconstrução da nação brasileira dependerá das políticas públicas a serem implantadas nas cidades conjuntamente pelos poderes federal, estadual e municipal.
No Brasil de hoje, com 85% de sua população vivendo nas cidades, a questão urbana é estratégica para a vida republicana. Assim, a democratização das cidades não é uma figura de retórica, mas condição imperiosa de sobrevivência do Estado Democrático brasileiro. No Estado do Rio de Janeiro a situação se agrava ainda mais, uma vez que seu interior é composto de economias relativamente frágeis, o que acarreta uma forte pressão social, urbana e política sobre a região metropolitana, principalmente nas áreas de contenção periférica, como a Baixada Fluminense.
São esses municípios de economia precária que dependem essencialmente do núcleo central da região metropolitana para garantir trabalho às suas populações. É triste andar pelas as ruas da Baixada ao entardecer e ver a quantidade de jovens, em idade produtiva, perambulando pelas vielas ou nas lajes de suas casas, sem ter o que fazer, presas vulneráveis do crime, fato que ocorre também em quase todos os subúrbios cariocas.
É nesse contexto que as populações mais desamparadas precisam aproveitar o processo eleitoral para eleger candidatos comprometidos com as causas populares. É essencial que se entenda que a eleição, por si só, não resolve tudo e, principalmente, que se acredite na organização autônoma do povo visando pressionar o poder público para que ele cumpra com suas obrigações. Esperar que os governos, espontaneamente, assumam esses compromissos é se colocar passivamente diante de um poder quase sempre estruturado para atender prioritariamente as demandas das classes dominantes.
Este é o desafio posto àqueles que acreditam e apostam nas transformações da sociedade brasileira: encontrar e experimentar mecanismos de participação popular que não se esgotem nas eleições e que não se deixem contaminar pelo poder da máquina pública, tampouco pelo aparelhismo de grupos ou partidos políticos, pois os governos e partidos, num determinado momento, se esgotam historicamente, mas a consciência cidadã, qual centelha, faz nascer em cada pessoa a certeza do seu papel de protagonista e não de espectador do processo social de seu tempo.

* Arquiteto e urbanista



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