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Nervos de aço

Jornal do Brasil PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.*

Lula realizou a obra quase milagrosa de virar um jogo que parecia totalmente perdido. Haddad passará ao segundo turno e deve derrotar Bolsonaro. Sempre existe o risco de surpresas e manobras de última hora. Mas o eleitor parece até certo ponto imunizado contra essas jogadas.
Um desafio se coloca, porém, desde logo. Se Haddad vencer, mesmo, vai ser preciso enfrentar o que se poderia chamar de terceiro turno. Sim, leitor(a), é perfeitamente possível ganhar a eleição e perder o governo. Foi o que aconteceu com Dilma em 2014.
O “terceiro turno” nada mais é que o turno adicional que a turma da bufunfa impõe quando não consegue prevalecer nos dois primeiros. O que está em disputa é o controle das principais alavancas da área econômica, notadamente o comando do Ministério da Fazenda e do Banco Central.
Somos todos gatos escaldados e estamos percebendo que o terceiro turno já começou. Haddad vem sendo e será pressionado a compor sua equipe de forma “responsável”, com profissionais respeitados pelo mercado financeiro. Dito de outra forma: o que a turma da bufunfa deseja, exige na verdade, é a rendição, a escolha de pessoas que alinhem a política econômica aos interesses do mercado.
Ora, ceder a isso é praticar o infame estelionato eleitoral: eleger-se com o povo e governar com os plutocratas. Mas atenção: a experiência brasileira sugere que estelionato eleitoral é suicídio político. Vide o Cruzado II, aplicado logo após as eleições de fins de 1986, traição da qual o governo Sarney nunca se recuperou. Collor passou por algo semelhante: nunca mais se refez do alongamento forçado das cadernetas de poupança e demais ativos financeiros, terminando por sofrer impeachment. FHC também nunca se recuperou do estelionato que praticou para se reeleger em 1998; depois das eleições corrigiu o câmbio artificialmente represado, mas perdeu para sempre a sua credibilidade.
Dilma é o caso mais recente: fez campanha para a reeleição com plataforma de esquerda, inclusive e notadamente na área econômica. Venceu o segundo turno, mas sofreu derrota flagrante no terceiro, quando entregou o comando do Ministério da Fazenda a um economista ortodoxo radical. A partir daí foi descendo ladeira abaixo e acabou derrubada.
Como será o terceiro turno desta vez? Temos riscos, mas também trunfos. Os riscos são psicológicos, em primeiro lugar. Existe sempre a tentação de seguir a estrada aparentemente mais fácil, de buscar a aceitação dos poderes estabelecidos. A turma da bufunfa é craque na arte de seduzir e manipular. Antonio Palocci fez o jogo deles, acreditando que iria longe. Foi abandonado à própria sorte depois que prestou variados e valiosos serviços.
O outro risco é econômico: a fragilidade fiscal. É elevado o déficit governamental, considerando (como se deve) não apenas o déficit primário, mas a carga de juros. A dívida pública também é elevada e tem vencimentos pesados no curto prazo. A turma da bufunfa opera em mercados concentrados, sujeitos a manipulações e movimentos combinados. A sua arma no terceiro turno é desencadear incertezas, que se traduziriam em dificuldades de rolagem da dívida de curto prazo e pressões sobre a taxa de câmbio.
Mas os trunfos do lado do governo são consideráveis, maiores do que em 2002 quando FHC deixou tudo pendurado por barbante. O problema da dívida pública é grave, mas mesmo aí temos vantagens. A dívida é sobretudo interna e denominada em moeda nacional. A parcela indexada ao câmbio é relativamente pequena. A que está em mãos de investidores estrangeiros também. Como o setor público é credor líquido em moeda estrangeira, a desvalorização cambial favorece as contas governamentais.
O setor público é credor líquido em moeda estrangeira basicamente porque as reservas internacionais são muito altas, da ordem de US$ 380 bilhões, herança positiva dos governos Lula e Dilma que não foi desbaratada no governo Temer. Por esses e outros motivos, a posição do setor externo da economia brasileira é excepcionalmente forte, o que nos diferencia de economias acossadas por crises cambiais como a Argentina, que já caiu nos braços do FMI, e a Turquia.
Por último e não menos importante: o terceiro turno é um filme que já vimos. Não há por que nos apavorar. O governo brasileiro tem condições de fazer face a pressões e eventuais ataques especulativos contra a dívida pública e a moeda nacional.
Requisitos: nervos de aço, calma e bom senso.

* Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos Brics, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países



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