Jornal do Brasil

País - Artigo

Cidade e meio ambiente

Jornal do Brasil ADIR BEN KAUSS*

O modelo de desenvolvimento estabelecido pela revolução industrial trouxe inúmeros progressos materiais, mas ao mesmo tempo grandes problemas aos países pobres que, impelidos a usar base produtiva semelhante à dos países desenvolvidos, se defrontam hoje com questões sociais e ambientais extremamente graves.
A produção capitalista industrial, ao precisar de grandes contingentes de trabalhadores nas cidades, foi responsável pelo aumento das populações urbanas em nosso planeta. No Brasil, esse fato se deu a partir da metade do século passado. Sem qualquer planejamento nas cidades para absorver o fluxo migratório interno, brasileiros que chegavam aos centros urbanos eram empurrados para as periferias não dotadas de saneamento básico, o que comprometeu os ecossistemas regionais.
Apesar de o nosso país ainda depender da industrialização convencional para o seu desenvolvimento econômico, para ser minimamente competitivo no mercado internacional vem se inserindo no novo ciclo pós-industrial em que as economias do primeiro mundo já ingressaram há algum tempo.
Esse novo ciclo caracteriza-se pela mecanização da produção, informatização e uso de tecnologias limpas. Como as fontes de energia não renováveis começam a escassear, tornando-se caras, busca-se utilizar novos processos alternativos ao petróleo e à energia elétrica oriunda de usinas hidrelétricas.
É fato que, por muito tempo ainda, o país dependerá dessas matrizes energéticas, como também dos trabalhadores no chão fabril. Entretanto, é um processo inexorável a substituição progressiva do uso de energia convencional, assim como da mão de obra sem qualificação pela especializada. Então, que fazer com os milhões de trabalhadores marginalizados do processo produtivo? Esse quadro de tensão social só se resolverá a médio e longo prazos por profundas transformações na educação e readequação da formação profissional da população brasileira.
O desafio posto ao próximo governo a ser eleito será o de encontrar soluções emergenciais para o atual quadro de crise com políticas econômicas que produzam o reaquecimento da produção industrial conjugadas com projetos de empreendedorismo na área popular e, principalmente, programas assistenciais que garantam uma renda básica universal a essa massa de mais de 13 milhões de trabalhadores desempregados.
Nosso país tem grande possibilidade de acesso à energia renovável. Possuímos um clima tropical, a luz solar é permanente em quase todas regiões; os ventos são constantes em todo o nordeste e em regiões do sul e sudeste; os 8 mil quilômetros de costa banhada pelo Atlântico permitem gerar energia do oceano e marés; a biomassa, oriunda de matéria orgânica de origem animal ou vegetal é outra fonte de energia possível, como o hidrogênio, abundante e que não produz emissões que contribuem para o feito estufa.
A China, com processo de industrialização semelhante ao nosso, intensificado nos últimos 50 anos a ponto de transformá-la na maior fábrica do mundo – produtos “made in China” -, vem investindo fortemente em fontes eólica e fotovoltaica (energia solar). Nos últimos 5 anos, sua capacidade instalada em eletricidade renovável superou a dos combustíveis fóssil e nuclear.
Para os centros urbanos, o uso de sistemas fotovoltaicos é a solução para um futuro imediato. Cada superfície disponível – ruas, calçadas, estacionamentos, fachadas e telhados das edificações podem se transformar em fontes geradoras de energia. Mais ainda agora, com os fotovoltaicos orgânicos (OPV) cujos painéis são impressos em bobinas, como a impressão dos jornais, com 1 milímetro de espessura, leves, utilizáveis como um revestimento qualquer, como uma película de vidro.
O carro elétrico da Tesla vem transformando a indústria automobilística. Em breve nas cidades só poderão trafegar veículos movidos a energia elétrica. Para os avanços tecnológicos não existem limites visíveis. No entanto, não nos esqueçamos que o bem-estar deve ser estendido a todos. Não há humanidade em usufruir da tecnologia quando, ao seu lado, invisíveis, perambulam pessoas descartáveis, abandonadas pelo Estado à sua própria sorte.

* Arquiteto e urbanista



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