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O século 21 e seus prenúncios assustadores

Jornal do Brasil RAQUEL STIVELMAN*

Segundo o parecer do Harari, o brilhante autor israelense dos livros best-sellers “Sapiens: uma breve história da humanidade” e também de “Homo Deus”, além do recém-lançado “21 Lições para o século 21”, se você “é um cristão fundamentalista, é mais provável que insista que cada palavra da Bíblia é a verdade. Suponhamos que por um momento você tenha razão e que a Bíblia realmente é a infalível palavra do único e verdadeiro Deus. O que, então, você faz com o Corão, o Talmud, o Livro dos Mórmons, os Vedas, o Avesta, o Livro dos Mortos Egípcios?”.
“Assim, mesmo que concordemos que a Bíblia é a verdadeira palavra de Deus, isso ainda nos deixa com bilhões de devotos hindus, muçulmanos, judeus, egípcios, romenos e japoneses que durante milhares de anos depositaram confiança em ficções. Isso não quer dizer que essas ficções sejam necessariamente desprovidas de valor ou danosas. Elas podem ser belas e inspiradoras”.
A verdade é que pairam sobre toda a humanidade nos dias de hoje três perigosas ameaças, a saber: uma guerra nuclear, um colapso ambiental e o perigo do desemprego em massa causado pela biotecnologia e a inteligência artificial. Harari reconhece que num enfoque teórico é possível a construção de uma “fortaleza liberal” que consiste numa sociedade que acredita na liberdade e na igualdade dos seus membros. O que acontece na realidade é que tal sociedade se isola do mundo, impõe proibições na imigração. Consequência imediata: tais “fortalezas” não são amigáveis. No seu modo de interpretar esse grave problema, uma possível resolução só poderá ser alcançada com cooperação. Somente quando os homens se unirem haverá uma chance de impedir nefastos e piores resultados.
Qual o mais perfeito sistema político do mundo? Utopia, pura utopia, porque não existe perfeição absoluta em nenhum sistema político. A democracia liberal tem muitas falhas e erros ainda, mas diante dos demais ainda é a menos ruim. Textualmente, Harari admite que os democratas não serão capazes de resolver os problemas do século 21. E repetindo suas indagações: “Como lidar com as mudanças climáticas? O que fazer quando a inteligência artificial tira bilhões de pessoas do mercado de trabalho? A realidade é assustadora, mas há escolhas. Temos que desenvolver modelos políticos para enfrentar os problemas”.
Harari ressalta, ainda, que as mídias sociais têm bons e maus resultados. Existe hoje uma maior facilidade na conexão entre pessoas muito distantes entre si, enquanto ainda prevalece uma dificuldade em focar nossa atenção no que acontece ao nosso derredor, bem perto de nós.
Em suma, conselho conclusivo de Harari: tente conhecer-se o mais sincero e profundamente que puder. Paira um perigo iminente de sofrer a ação de hackers. E se prováveis hackers chegarem a conhecer você melhor do que você mesmo se conhece, eles se apossarão de você e farão de você o que bem quiserem.
E quanto ao nosso estado de espírito em relação ao futuro, Harari se declara realista, mesmo porque ele acredita na sabedoria humana para enfrentar e superar desafios. Mas, por um outro lado, o homem é vítima da sua estupidez. A sobrevivência e a prosperidade pressupõem a existência de muitas pessoas sábias.
Infelizmente, segundo sua maneira de ver os perigos existentes, poucas, um número pequeno de pessoas estúpidas, tolas, são suficientes. O que temos presenciado, estarrecidos, nos dias atuais, é que não existe empatia a nível individual ou coletivo entre os homens. Os governos só defendem o que é mais pragmático e vantajoso para eles; os seres humanos sofredores não despertam sua pena e solidariedade.
Um exemplo fidedigno dessa situação é o grave problema dos refugiados. Tem-se a impressão que não existe mais compaixão entre os homens que não sabem mais imaginar que eles, os poderosos e privilegiados de hoje, podem se transformar em seres humanos que deverão implorar por mínimas condições de vida possíveis. O famoso escritor Khaled Hosseini, autor do best-seller “O caçador de pipas”, comoveu-se profundamente, como também aconteceu com o mundo inteiro, horrorizado com uma foto do corpo de um menino encontrado na beira de uma praia turca. Alan Kurdi é o seu nome, tinha só 3 anos e se afogou no mar com sua mãe e seu irmão quando tentavam cruzar o Mediterrâneo para fugir da guerra da Síria.
Multidões de refugiados desafiam o oceano para se abrigar em países europeus que os recebem. Hosseini não conseguiu se desligar da ideia de que ele pudesse se colocar no lugar daquele pai que perdeu a mulher e dois filhos. Ele conhece bem o que é ser um refugiado porque ele sofreu na própria carne as agruras de ser um refugiado afegão.
Para criar um tributo à família Kurdi, Hosseini escreveu o livro “A memória do mar”. Foi a maneira para relembrar e chamar nossa atenção para o que aconteceu com Alan Kurdi há três anos. Ele é basicamente um humanista que se dedicou a percorrer diferentes campos de refugiados. Ele ressalta que refugiados são como todos nós: médicos, professores, vendedores ambulantes, donas de casa e muitas, muitas crianças. Ninguém escolhe ser refugiado. Perder tudo que possui e ter que enfrentar o desconhecido pode acontecer a qualquer um de nós.
Como somos por vezes insensíveis face à dor do outro, como somos estúpidos e tão menos humanos! Hosseini nasceu em Cabul e lá viveu até os 11 anos de idade, quando saiu do Afeganistão porque seu pai, que era diplomata, foi servir em Paris.
Não é na condição de cientista político que ele tem como objetivo analisar o crescimento do nacionalismo exacerbado que fecha, tranca, cerra cada vez mais as portas da Europa. Cada qual defende suas prioridades e os outros desafortunados que se virem.

* Mestre em Educação pela UFRJ



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