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Obesidade infantil: um passo para a doença renal crônica

Jornal do Brasil MARCELO DE SOUSA TAVARES*

A criança obesa de hoje pode ser o adulto com doença renal crônica de amanhã. Além de todos os problemas físicos e sociais que o excesso de peso acarreta, ele ainda pode ser o “abre-alas” para patologias sérias, como o diabetes e a hipertensão, que danificam órgãos e acarretam doenças renais crônicas. O mau funcionamento dos rins exige tratamento com implicação em vários aspectos da vida, desde mudança de dieta e medicamentos de uso contínuo e, em casos extremos, pode levar à necessidade de diálise e transplante do órgão, comprometendo a qualidade de vida dessas pessoas. A associação entre obesidade infantil e possíveis danos renais foi alertada já em artigo datado de 2006, por pesquisadores da Johns Hopkins University. Com novas conquistas tecnológicas, vários recém-nascidos prematuros com menos de 1kg também começaram a apresentar sobrevida mais longa, o que mostrou-se em vários estudos como fator predisponente tanto para obesidade futura como para doença renal crônica.
De acordo com o Censo de 2017, divulgado pela Sociedade Brasileira de Nefrologia, temos 126 mil pacientes em diálise no país e, em média, 35 mil pacientes novos entram em tratamento e cerca de seis mil são transplantados. Infelizmente, a taxa de mortalidade é elevada e se mantém constante, devido à concomitância de complicações cardiovasculares nesses casos.
A preocupação da SBN em relação aos dados divulgados à imprensa pela Organização Mundial de Saúde, apontando que o número de crianças e adolescentes acima do peso entre 5 e 19 anos chega a 124 milhões, é que existe uma grande chance de essas pessoas manterem o sobrepeso ou a obesidade ao chegar à idade adulta caso nada seja feito. Há cerca de quatro décadas, em 1975, esse número era de 11 milhões. Mantendo-se a tendência, até 2022, o mundo terá mais crianças e adolescentes acima do peso do que desnutridos.
Portanto, a sociedade moderna terá que encontrar ferramentas para lidar com um problema de saúde pública, que onera o sistema e cria uma geração de pessoas doentes sob o ponto de vista físico e emocional.
Quando se trata de mulheres, a questão torna-se ainda mais aguda. Durante a gestação, aumenta-se o risco do desenvolvimento de patologias como hipertensão e diabetes na mãe. Se há um histórico desse tipo de doença promovido anteriormente pelas doenças relacionadas à obesidade precoce, engravidar poderá exigir uma série de cuidados mais intensivos, tanto por parte da gestante quanto pela equipe de saúde.
É fato que a genética contribui para futuras gerações de obesos, mas a falta de atividade física e a alimentação desregrada e hipercalórica são os maiores promotores dos problemas sérios com a balança. A grande oferta de alimentos ricos em gordura e açúcares e o excesso de sal, principalmente nos alimentos processados, associados à tendência à inatividade física induzida por excesso de uso de computadores, celulares e tablets, contribuem para o ganho de peso progressivo. As comidas mais calóricas – hambúrgueres, refrigerantes, salgados fritos e doces, dentre outros – estão sempre à disposição, podendo ser compradas rapidamente, por valores acessíveis e em qualquer lugar. As famílias precisam chamar para si a responsabilidade de supervisionar a alimentação e estimular a prática de exercícios e esportes. As famílias devem ser conscientizadas para limitar o tempo diário em TVs, celulares e tablets. Mudar a rotina, criando valores em relação ao que é colocado à mesa, estabelecendo uma relação mais saudável com a comida e com o corpo não é apenas uma filosofia de vida. É um divisor de águas entre ser saudável e assumir o risco de comprometer toda uma história de vida e de futuras gerações.

* Nefrologista pediátrico titular da Sociedade Brasileira de Nefrologia



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