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Coluna da Segunda - A hora do PT é agora

Jornal do Brasil OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

Diante das informações que vêm da cúpula do PT depois que a candidatura do ex-presidente Lula foi barrada pelo TSE, fico pensando na música de Vandré que se tornou em hino da esquerda. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, diz o refrão, que ganhou a força de cantos de resistência como ‘Bella Ciao’ e ‘Bandiera Rossa’, sem falar da ‘Internacional’. Os petistas ilustres que participam das decisões estratégicas conhecem bem todas essas letras e já cantaram o hino de Vandré a plenos pulmões em vários momentos de militância política. Por que, então, continuam a aguardar um sinal de Curitiba para bater o martelo sobre os rumos do PT na sucessão presidencial? Por que perdem tempo precioso para dar a largada na candidatura de Fernando Haddad, com Manuela D’Ávila de vice? Qual é a dúvida, companheiros?

Dizem que o PT está dividido em três alternativas. As opções seriam as seguintes: confirmar o nome de Haddad hoje ou amanhã; recorrer a instâncias superiores (STJ e STF) e esperar o prazo de 10 dias dado pelo TSE para a troca de chapa; ou, ainda, deixar a troca para a data limite, 17 de setembro. Alguns mais radicais falam até em levar a aposta em Lula até o fim e ficar de fora da eleição, como forma extremada de protesto. Nos bastidores, surgem comentários de que se cogita trocar o nome de Haddad pelo da presidente nacional do partido Gleisi Hoffmann. Os defensores dessa saída afirmam que Gleisi é mais combativa e mais afinada com o perfil da militância. Haddad, segundo eles, é sofisticado demais para o eleitorado que vota em Lula.

Em meio à discussão, o PT pode perder o bonde da história. A eleição está na rua e a campanha no rádio e na TV é a mais curta de todos os tempos. Apenas 31 dias até o 4 de outubro, quando se encerra o horário gratuito. Hoje, Fernando Haddad encontra-se com Lula, na sala especial da sede da PF, em Curitiba, que foi transformada em cela do ex-presidente. Certamente, Lula deve estar com a cabeça quente e bastante tenso depois da decisão do TSE. Preso desde abril e com a candidatura impugnada, pode estar disposto a virar a mesa e a dar por encerrada qualquer esperança no processo eleitoral. Mas o desespero não é bom conselheiro. Acima do drama pessoal está o resultado de uma eleição que também se mostra dramática para os destinos do país. Ontem mesmo, pesquisa do Instituto Paraná exibiu folgada liderança do ex-capitão Jair Bolsonaro. O momento é muito grave. Exige equilíbrio e reflexão.

É justo que o PT continue a lutar pela liberdade de Lula. Mas, em relação à disputa pela Presidência, seria um erro tratá-la como um objetivo individual e intransferível, por mais carismático que o ex-presidente seja. Com o titular impugnado, só há um caminho pela frente: dar apoio a Fernando Haddad e apostar na transferência de votos que já aparece em algumas pesquisas. Na consulta da XP, elaborada pelo especialista Antonio Lavareda, o apoio de Lula leva Haddad ao segundo lugar, com 13% das intenções de voto. Imaginem o resultado que o ex-prefeito de São Paulo pode alcançar, como reflexo de sua participação em debates e da exposição no horário gratuito. O povo não é bobo e já percebeu que Lula é Haddad e Haddad é Lula. Aqueles que, dentro do PT, acusam Haddad de ter um perfil elitista não levam em conta a história do próprio partido. O PT foi fundado com o apoio do meio acadêmico. Lá estavam, entre outros, Antonio Cândido, Mário Pedrosa, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Freire e Marilena Chauí.

Intelectual de esquerda, Haddad tem tudo a ver com a origem do PT. Sua dissertação de mestrado, de 1989, na Faculdade de Administração e Economia da USP, está publicada no livro ‘O Sistema Soviético, relato de uma polêmica’. Até hoje, o ex-ministro da Educação mantém o hábito de frequentar uma roda de professores marxistas que se reúne na pizzaria Bonde Paulista, à rua Oscar Freire. Lança-se contra Haddad o fato de o ex-prefeito ter sido derrotado no primeiro turno por João Doria ao tentar se reeleger em 2016. Esquecem os críticos que aquela eleição foi marcada pelo impeachment de Dilma Rousseff e esquecem também que Fernando Henrique perdeu a eleição para a prefeitura de São Paulo em 1985, porém foi eleito presidente da República em 1994. Ninguém ganha uma eleição de véspera. Mas, a esta altura, Fernando Haddad é a opção mais segura do PT. E também a melhor escolha de Lula.

P. S. É lamentável o descaso com a nossa história



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