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Sonho e realidade

Jornal do Brasil ADIR BEN KAUSS*

Até algum tempo atrás, o mundo se dividia entre os sistemas capitalista e comunista, com suas diversas nuances. Em linhas gerais, enquanto um estimulava o Estado mínimo, a acumulação do capital, a iniciativa privada, a economia de mercado; o outro preconizava a economia controlada por um Estado forte e detentor dos meios de produção, mediante políticas econômico-sociais centralizadas.


As duas concepções de sociedade se alteraram no fim do século 20. Tanto o capitalismo globalizou-se, internacionalizando-se nos mercados financeiros voláteis e desterritorializados, como o comunismo se reestruturou como um neocapitalismo de Estado, nacionalista, não imperialista. A China é o exemplo mais expressivo desse campo político.


Entretanto, nenhum desses dois sistemas deu conta das questões que até hoje perduram: as desigualdades sociais; a exclusão; a opressão política e econômica sobre a sociedade e a liberdade política individual e coletiva, que não podem ser relativizadas, sob pena de perder seu significado civilizatório.


Gerações foram formadas na utopia de que era e é possível construir sociedades mais justas. Muitos não abandonaram essa crença, apesar das dúvidas de como realizá-la. É importante que se tenham essas dúvidas porque elas serão capazes de romper dogmas, flexibilizar certezas, questionar aplicações mecanicistas de outras experiências históricas e transformar sonho em realidade pela elaboração de uma nova proposta socialista endógena, libertária e democrática.


O mundo hoje passa por um momento político complexo, que está a exigir tolerância entre os que pensam diferentemente de nós. A compreensão das contradições das sociedades talvez fique mais inteligível quando discutirmos as cidades com as suas conflagrações internas, pois, no espaço urbano contemporâneo, a cena das transformações se dá no palco citadino. Em um país como o nosso, o conflito de interesses se explicita claramente quando se propõe uma cidade mais includente, em que não haja mais resignação a desigualdades e discriminações de qualquer natureza.


As grandes e médias cidades brasileiras são territórios consolidados. Impossível desurbanizá-las para depois tentar novos modelos ideais de espacialização mais igualitária, como de certa forma o urbanismo modernista/funcionalista preconizava. Trata-se, assim, de se reconhecer realisticamente a herança recebida e trabalhar para transformá-la em espaços mais humanitários, palavra-símbolo para qualquer projeto que se pretenda socialista.


Ao se partir dessa lógica, entende-se que a formulação de um novo sistema paritário entre classes sociais no plano urbano não prescindirá da participação ativa da população organizada, rua a rua, bairro a bairro, tanto na proposição, como no controle das políticas públicas.


As sociedades distópicas, em que o poder político é mantido autoritariamente por uma minoria, não são uma ficção escrita por Orwell ou Huxley, mas uma tangível realidade controlada pelo poder econômico privado ou estatal que interfere na vida política, elegendo seus candidatos e isolando seus adversários.


A construção de uma cidade socialista não é um devaneio intelectual saudosista e melancólico, mas uma resposta aos conflitos urbanos que se aprofundam dia após dia, em que nem os liberais, tampouco os sociais-democratas, ofereceram soluções eficazes à crise instalada.


Uma nova organização social cidadã pressupõe a revisão dos conceitos da democracia convencional, visando a que o Estado exerça, como seria desejável, um papel moderador, neutralizando o poder econômico e sendo um agente facilitador para que as ações populares assumam progressivamente responsabilidades, até que, em determinado momento, os movimentos sociais se confundam simbioticamente com o Estado, base de uma nova democracia direta e participativa. Democracia e liberdade entendidos como valores absolutos edificarão o socialismo do século 21.

* Arquiteto e urbanista



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