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Leopoldina - Estação Abandono

Jornal do Brasil ANGELA FRANÇA*

No cenário de um trânsito caótico da Avenida Francisco Bicalho, na Cidade do Rio, a fachada da construção, inaugurada em 1926, com o nome de Estação Barão de Mauá, ou Leopoldina, como também é conhecida, destaca-se pela imponência e beleza de um projeto desenhado pelo arquiteto escocês Robert Prentice, inspirado em construções palacianas inglesas, tendo sido elogiada, inclusive, por estrangeiros admiradores de boa arquitetura. Recebeu esse nome para homenagear Irineu Evangelista de Souza, o Barão pioneiro da ferrovia no Brasil.


Marco histórico da ferrovia, por registrar em seu leito o primeiro trecho ferroviário do país, que ia da Praia de Mauá ao Município de Petrópolis, construído durante o Império e amplamente utilizado à época pela família imperial em viagens cheias de requintes. Cartão postal que historicamente representa importante marco econômico e operacional do modal ferroviário no Brasil, ironicamente teve a sua utilização desvirtuada e controvertida, fruto de inconsequentes decisões de governantes, que jogaram no “lixo” tão importante e histórica edificação.


A fundação se deu quase 20 anos depois dos pedidos para a sua construção e um dos pontos que mais motivaram esse desejo foi o fato de haver diferenças entre as bitolas. A linha da Leopoldina começava na estação de São Francisco Xavier, da Central, o que forçava os passageiros à baldeação. Em 1890, a linha toda passou para o controle da Leopoldina, deixando as antigas empresas e construções para trás e, no ano de 1926, a linha foi estendida até a estação de Barão de Mauá, a Leopoldina, como ficou sendo chamada devido ao nome da Companhia de Estrada de Ferro.


No interior da estação ainda há vestígios de uma época em que milhares de pessoas circulavam diariamente por lá. Pórticos de madeira indicam que ali funcionaram charutaria, restaurante, capela, administração e lanchonete. O portão também não foi modificado e ainda traz no letreiro uma informação com grafia antiga: “Sahida”.


A memorável estação, terminal da Estrada de Ferro Leopoldina, operacionalizava milhões de toneladas/quilômetros de produtos agrícolas e recebia milhares de passageiros oriundos da Zona da Mata de Minas Gerais, do Espírito Santo e do Norte Fluminense, também, com seus trens expressos, automotrizes, rápidos e noturnos, além de servir de terminal aos subúrbios da Leopoldina.


Em frente à estação, camelôs, pontos de ônibus e de táxi ainda dão vida ao prédio centenário. Desde quando foi fechada, boatos de que existem projetos para a sua revitalização circulam, falando em museu, shopping, centro cultural, porém nada disso saiu do papel e atualmente o terreno da gare é utilizado em parte como depósito de trens, onde existe um trem antigo de madeira, composições enferrujadas e até veículos apreendidos pela Secretaria Especial de Ordem Pública, onde o mato tomou conta de boa parte da área.


Quando se cogitou da proposta de um trem de alta velocidade, pensou-se logo que a estação carioca fosse Barão de Mauá, mais um sonho que não vingou.


Deveria, sim, ser transformada em um museu, todos os países do mundo conservam suas estações ferroviárias. Em Paris, temos o maravilhoso Museu D’Orsay numa antiga estação. A Estação da Luz, em São Paulo, abriga o Museu da Língua Portuguesa, já a nossa triste Barão de Mauá está repleta de espaços vazios, onde a beleza contrasta com a deterioração da construção, coberta por fuligem e pichações.O prédio vem a cada dia se degradando apresentando visíveis rachaduras, infiltrações, vidros quebrados, pedaços de reboco soltos com riscos de desabamento das marquises.


Apesar de tombada desde a década de 1990, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – Inepac – e pelo Iphan, virou endereço de abandono, transformando-se em um perigoso ponto de traficantes e meliantes.


É triste ver parte da nossa história ferroviária chegar a esse ponto por total descaso.


Depois que a estação foi desativada ao transporte de passageiros, uma divisão de propriedade entre a União e o estado os tornou coproprietários, tendo responsabilidade compartilhada sobre o mesmo. A parte do estado foi cedida à Supervia, que usou o imóvel por anos, contribuindo para sua degradação, quando promovia festas particulares, ensaios fotográficos para eventos de moda, o que permitiu à concessionária receber milhares de reais às custas dessas locações.


Muitos ainda sonham com a reabertura da Estação da Leopoldina para que volte a ser uma estação de trens, pouco provável que isso aconteça e, se acontecer, não terá mais o mesmo glamour de épocas passadas.

* Engenheira, ex-presidente do Comitê Brasileiro Metro-Ferroviário da ABNT



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