Ex-número 2 da Saúde mostra em CPI preferência por vacina da AZ

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Jefferson Rudy/Agência Senado
Credit...Jefferson Rudy/Agência Senado

O ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Elcio Franco relatou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 nessa quarta-feira (9) que o governo fechou o acordo com a AstraZeneca ainda durante a fase dos testes porque a vacina permitia a transmissão de tecnologia de produção.

Segundo Franco, nenhuma outra farmacêutica tinha um contrato do tipo e que, por isso, o governo esperou o fim dos testes de fase 3 para efetuar as compras de outras fórmulas. “A fase 3 é cemitério de vacinas”, repetiu várias vezes ao falar dos estudos clínicas.

Pressionado sobre o depoimento do presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, que revelou que o Ministério da Saúde não deu andamento às negociações com os paulistas, o ex-número 2 de Eduardo Pazuello negou.

Segundo Covas, após o presidente Jair Bolsonaro dizer nas redes sociais que não compraria “vacinas chinesas”, em referência à CoronaVac, as negociações ficaram paradas entre outubro e janeiro de 2021.

“Eu acredito que foi uma percepção doutor Dimas. Mas, a área técnica ficou sempre acompanhando o desenvolvimento da vacina. As tratativas não pararam”, desconversou.

Sobre a compra só de vacinas com fase 3 finalizada, a história também não é verdadeira, já que a vacina indiana Covaxin foi comprada pelo Ministério sem as conclusões da fase final de testes em humanos.

Sobre a demora para responder os 53 e-mails da Pfizer, Franco falou que ele primeiro demorou para responder porque “um vírus invadiu sua caixa de e-mail”, o que o fez ficar por uma semana sem acesso à caixa de entrada.

Depois, disse que a Pfizer “pressionava” o Ministério enviando “três ou quatro e-mails iguais por dia”. Em outro momento, ressaltou que era necessária uma mudança de legislação para poder comprar vacinas que ainda não foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) .

A senadora Eliziane Gama, então, perguntou porque o governo não mandou um projeto para alterar a lei – algo que só foi feito em janeiro -, e Franco voltou a falar de “cemitério de vacinas na fase 3”. “Então, o governo não tinha interesse, é isso?”, questionou novamente Gama, e Franco voltou a dizer que o Ministério da Saúde só acompanhava os estudos.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros, também questionou qual o motivo do Brasil ter optado por receber vacinas do Covax Facility para apenas 10% da população – quando poderia optar por 50% – e Franco disse que foram considerados os números da vacina da gripe.

“Considerando o que usamos para a influenza, nós já tínhamos a aquisição de cerca 90 milhões da AstraZeneca. […] Com as demais, nós já tínhamos acordos para 256 milhões. Os 10% já eram suficientes”, ressaltou, dizendo que o governo continuava “com negociações bilaterais com outros farmacêuticas”.

O ex-secretário confirmou que foi ele quem decidiu pela compra de só 10% porque “ouviu todos os técnicos do Ministério até a assinatura final do ministro da Saúde”.

Sobre o uso do “tratamento precoce”, o kit de medicamentos defendido por Bolsonaro que já teve ineficácia comprovada contra a Covid-19, Franco reiterou o discurso que o Ministério não indicava as drogas. Porém, disse que tomou hidroxicloroquina e ivermectina quando contraiu a doença – precisando de internação do mesmo jeito.

Ao ser questionado sobre o envio de três milhões de pílulas de hidroxicloroquina dos Estados Unidos, Franco mentiu dizendo que a droga era por conta da malária.

“Não ocorreu a aquisição de cloroquina em 2020 para combate a Covid, porém, identificamos que precisávamos para atender ao programa antimalária do primeiro semestre deste ano”, disse. Os senadores se indignaram, dizendo que o próprio Bolsonaro afirmou que os medicamentos eram para a Covid-19 e chamaram Franco de mentiroso.

Convocações

Antes de começar a sessão, os senadores tiveram um debate intenso para a convocação de novos depoentes.

Entre os convocados, está o deputado Osmar Terra – que aparece em um vídeo sendo chamado de assessor por Bolsonaro e é um dos maiores defensores da “imunidade de rebanho” e de medicamentos sem eficácia – e o auditor do Tribunal de Contas da União (TCU), Alexandre Figueirado Marques.

Este último é alvo de uma investigação interna por ter inserido dados falsos em um relatório sobre uma suposta supernotificação de mortes por Covid-19 no país.

Também foram chamados o empresário José Alves Filho, o secretário de Comunicação Institucional do governo, Felipe Cruz Pedri, o presidente da Apsen Farmacêutica, Renato Spallicci, o ex-secretário de Saúde do Distrito Federal Francisco de Araújo Filho e Francieli Franciato, coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI). Também será chamado o desenvolvedor do aplicativo TrateCov. (com agência Ansa).