'Fakes news' levam indígenas a temer mudança de modo de vida e a resistir à vacinação, diz analista

Um levantamento feito pelo Governo mostrou que o Brasil já deveria ter imunizado contra a covid-19 o número de 431.983 indígenas, incluídos nos quatro primeiros grupos prioritários da campanha nacional

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
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Apesar disso, 62% não tomaram nenhuma dose, e o percentual é ainda maior entre os Estados da Amazônia: 71%. Lideranças apontam as fake news como uma das causas do baixo índice de vacinação. Na quinta-feira (18), o governo brasileiro oficiou no Supremo Tribunal Federal (STF) a informação de que foi ampliado o número de populações indígenas a serem contempladas com a cobertura vacinal.

Mas qual o real efeito que as fake news têm sobre as populações indígenas? Para discutir o assunto a agência de notícias Sputnik Brasil conversou com Roberto Liebgott, coordenador do Conselho Indigenista Missionário–Sul (Cimi-Sul).

Ele avalia que o problema de origem é a negação por parte do Estado — através de seus governantes e em especial do presidente da República, de seu ministro da Saúde e de toda a equipe de governo — de impor à sociedade como um todo, e não só aos povos indígenas, uma sensação de insegurança diante da vacina.

"O Governo Federal é negacionista e essa sua postura é que vem efetivamente comprometendo todo o processo de imunização no país. Temos que analisar primeiramente e levar em conta essa concepção do Governo brasileiro de pôr em dúvida a eficácia da vacina, propondo que as pessoas não se vacinassem e fazendo a disseminação de mentiras acerca das consequências desse processo de vacinação”, declarou de forma veemente o especialista.

Segundo ele, com o discurso das autoridades, começou em âmbito nacional a serem desencadeadas as fake news. Elas foram sendo disseminadas paulatinamente, atingindo todas as camadas sociais, mas de modo especial atingindo duramente as populações mais pobres, mais vulneráveis, aquelas que mais necessitam da cobertura vacinal.

"As mentiras acerca da vacina foram sendo propagadas com mensagens que previam para os indígenas a transformação do seu modo de vida. Então, em algumas mensagens, se podia identificar a informação de que aqueles que fossem vacinados teriam uma vida muito curta, uma vida curta e com muito adoecimento, que levaria à morte prematura. Uma outra mensagem é de que aquele que fosse vacinado perderia a fertilidade e, mais que isso, em determinadas mensagens se dizia que as pessoas mudariam inclusive de sexo", explicou Liebgott.

Outra linha de informação é que eles se tornariam animais, ponto em que o indigenista atenta para o fato de que na cosmovisão de muitos povos indígenas isso é perfeitamente possível. (com agência Sputnik Brasil)