Só EUA e Índia podem tirar o Brasil do pódio do Covid-19

O Brasil assumiu o 2º lugar mundial em número de mortes pelo Covid-19 em 12 de junho. Pelo tamanho de sua população (211,7 milhões de habitantes, segundo a projeção do IBGE) e os desencontros entre o governo federal e os governadores e prefeitos, com os insistentes gestos e pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro contra as medidas de isolamento e profilaxia mínima (uso de máscaras, evitar abraços e apertos de mãos, que devem ser sempre lavadas com sabão ou álcool em gel) só a recidiva de casos nos Estados Unidos (329 milhões de habitantes) e um desastre na Índia (1.380 milhões), gerado por hábitos culturais e religiosos arraigados, podem nos tirar do pódio.

As estatísticas veiculadas nesta 4ª feira, 1º de junho, pelo “New York Times” mostram que os novos casos de contaminação estão explodindo nos EUA. Ontem, dia 30 de junho, foram registrados 48.365 novos casos (um preocupante aumento de 82% em 14 dias). O país acumula 2,653 milhões de casos (dos 10,4 milhões de casos no mundo) e 127,4 mil das 511,4 mil mortes globais. A vida americana mudou após o vírus. Shows, concertos, desfiles e jogos foram cancelados. O desemprego explodiu. Mas em alguns estados que reabriram cedo, os níveis de contaminados aumentaram novamente. Como medida preventiva, muitos estados e cidades recuaram na flexibilização e está havendo um apelo para que não se façam aglomerações na data nacional – o 4 de julho.

Sem médico no comando do Ministério da Saúde há 46 dias, o Brasil registrou ontem 36.594 novos casos, um aumento de 40% frente a duas semanas, quando começou a flexibilização. E dos 1,402 milhão de casos (790 mil recuperados), ainda estão ativos 552,4 mil casos. Com as novas 1.280 mortes compiladas dia 30 (parte acumulada no fim de semana, quando muitas secretarias municipais estavam em recesso), o país acumula 59.600 óbitos. A situação brasileira é preocupante porque em São Paulo e no Rio de Janeiro, os dois estados que lideram as estatísticas em contaminação e óbitos, houve reabertura precipitada e desordenada nas duas capitais (muitas aglomerações se formaram nos centros de comércio, com forte incidência de pessoas sem usar máscaras ou fazer seu uso correto, bem como assepsia das mãos). E a superlotação nos transportes urbanos tende a provocar nova onda de contaminações.

Se não bastasse isso o vírus se espalha pelo imenso interior do país e alcança em pleno inverno, estados que antes apresentavam estatísticas modestas. Casos de Rio Grande do Sul e Paraná (que possuem 22,8 milhões de habitantes e apenas 1.300 mortes até ontem) e os estados do Centro-Oeste (Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás). Minas Gerais, 2º estado mais populoso do país, com 21,2 milhões de habitantes e mais de 880 municípios, é um caso típico de subnotificação e falta de testes. Com essa população, só registrava 45 mil contágios e 965 mortes. Um contrassenso em comparação ao vizinho Espírito Santo (onde os mineiros buscam as praias em férias ou feriados prolongados). Com menos de 25% da população mineira, os 4 milhões de capixabas registravam 46,8 mil contágios e quase o dobro das mortes em Minas: 1.648, segundo dados do Ministério da Saúde de 30 de junho. Vale lembrar que o vírus avança também na Bahia. O 4º estado mais populoso (14,9 milhões e dos maiores em extensão no país) tinha 73,3 mil contaminados e 1.853 óbitos até ontem. Mas só no dia 30 de junho foram registrados 3.840 novos casos.

Hábitos arraigados espalham contágio na Índia

Com uma população quase tão grande contra os 1.400 milhões da China, porém com maior pobreza e menor poder de controle do Estado sobre seus cidadãos, a Índia, com 1.380 milhões de habitantes, é um grande desafio à saúde pública. Logo que surgiram os primeiros casos de Covid-19 no país, o primeiro ministro Narenda Modi determinou rígido isolamento, reprimindo severamente os que ousavam desobedecer ao toque de recolher. Para evitar a propagação do contágio, retirou os trens de circulação. Milhares de indianos fizeram peregrinação por 160 quilômetros a pé para voltarem para casa. Isso ajudou a propagar a doença.

Mas a existência de arraigados hábitos, religiosos ou de costumes, têm sido os maiores obstáculos ao controle do vírus. Em março, uma peregrinação de muçulmanos (que representam cerca de 200 milhões de pessoas) espalhou o vírus para diversas regiões. Ontem, o país registrava 585 mil contágios (atrás dos 653 mil da Rússia) e aparecia em 8º lugar em óbitos, com 17.400 vítimas. À sua frente estava o México, com 27,7 milhões de óbitos (atrás da Espanha – 28,3 mil, França – 30 mil, Itália – 34mil, e Reino Unido – 43 mil). Mas, com uma população de 129 milhões de habitantes e o registro de 5.432 casos nas últimas 24 horas, o México pode chegar a um 4 ] ou 5º ponto, já que os novos casos na Europa mal têm alcançado a casa diária de uma centena nos países mais afetados.

Com 18,4 mil novos casos ontem, um aumento de 60% em duas semanas, a Índia é o único país que pode desbancar o Brasil e os EUA como centro das preocupações da Organização Mundial de Saúde em relação ao vírus, que só deverá ter vacina confiável na virada do ano ou começo de 2021. Um caso recente relatado na Índia pelo “NYT” serve de alerta para a falta de cuidado dos brasileiros que se aglomeram nas praias ignorando o poder de contágio e a letalidade do Covid-19.

“Mais de 100 pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus na Índia depois que participaram, com poucos dias de intervalo, no casamento e no funeral de um jovem que possivelmente contraiu COVID-19, informa a imprensa local. Mais de 400 pessoas acompanharam a cerimônia de casamento, em 15 de junho, de um jovem de 26 anos que estava com sintomas da doença. Ele morreu dois dias depois do matrimônio e centenas de pessoas compareceram ao funeral. Até o momento, 111 pessoas, que participaram no casamento ou no funeral, apresentaram resultado positivo. Todas as demais foram identificadas e iniciaram o isolamento. As autoridades estabeleceram uma área especial de testes para as pessoas que compareceram aos dois eventos após a detecção de um foco na região. E a família do noivo está sendo investigada

Até agora, grande parte dos casos da Índia no Covid-19 vieram de cinco estados: Maharashtra (175 mil casos e quase 8 mil mortes) e Tamil Nadu (90 mil e 1,2 mil, respectivamente), com 45% do número de casos, seguidos por Delhi, Gujarat e Rajasthan.

Imagine no Brasil o que irá acontecer com o retorno desordenado das atividades do comércio de rua, salões de beleza e bares e restaurantes.

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