Negociação fracassada expõe articulação frágil do Planalto

Crise se dá em um momento de grande fragilidade do governo Bolsonaro, que pode comprometer ainda mais sua problemática relação com o Congresso Nacional

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A negociação de uma saída para o impasse na liderança do PSL na Câmara -que entra na segunda semana de uma guerra de listas- expôs a fragilidade da articulação política do Planalto.

Um telefonema do ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) ao presidente nacional do partido, deputado Luciano Bivar (PE), gerou um ruído no que poderia ser a saída para a pacificação da bancada do partido do presidente Jair Bolsonaro.

A sigla vive crise há duas semanas, desde que ele disse que Bivar está "queimado pra caramba" e deixou clara a intenção de migrar de legenda.

Em seu desdobramento mais recente, o racha atingiu a liderança do PSL na Câmara, marcado por sucessivas mudanças no posto à medida que deputados se organizam para construir listas de apoio.

Entre a semana passada e esta, o cargo foi alternado por dois deputados: Delegado Waldir (GO) -que conta com apoio de Bivar- e Eduardo Bolsonaro (SP), referendado pela ala alinhada ao seu pai.

Na manhã desta segunda (21), Ramos e Bivar trataram da possibilidade de buscar uma terceira via para o posto.

Por essa negociação, tanto Waldir quanto Eduardo abririam mão da disputa e as duas alas buscariam um nome de consenso. O telefonema, contudo, elevou a temperatura da briga interna e uma nova guerra de listas foi criada.

Enquanto o governo afirma que não houve acordo algum, apenas conversas preliminares, aliados de Bivar acusam o Planalto de traição e descumprimento de um tratado.

Nos bastidores, pessoas próximas ao governo dizem que, mesmo se quisesse, Ramos não teria força para destituir Eduardo, já que o deputado é um dos filhos do presidente.

O ruído se dá em um momento de grande fragilidade do governo Bolsonaro, que pode comprometer ainda mais sua problemática relação com o Congresso Nacional.

Em busca de melhorar a articulação, o presidente já passou a procurar caciques de outros partidos e fez trocas em cargos de liderança, como a destituição da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) da liderança do governo no Congresso, substituída pelo senador Eduardo Gomes (MDB-TO).

Perto das 9h desta segunda, o líder do governo na Câmara, deputado Major Vitor Hugo (GO), anunciou pelo Twitter que havia protocolado uma lista em apoio a Eduardo. Pouco depois, Delegado Waldir, que até o início desta segunda era o líder na Câmara, divulgou vídeo dizendo que abriria mão do posto.

A desistência causou surpresa e logo aliados de Waldir e Bivar disseram que ela ocorreu por proposta do governo.

Na sequência, a Secretaria-Geral da Mesa da Câmara reconheceu Eduardo Bolsonaro como líder do PSL na Casa, ao referendar que o deputado tinha 28 assinaturas favoráveis a seu nome.

No vídeo, Waldir não faz menção direta a Eduardo e trata o novo líder da legenda como um nome em aberto.

A oficialização do nome do filho de Bolsonaro gerou reação entre aliados de Bivar, e o deputado Júnior Bozzella (SP) passou a dizer que o governo não estava cumprindo um acordo entre Ramos e Bivar.

A partir daí uma nova guerra de listas para a escolha da liderança foi travada.

Major Vitor Hugo se apressou em afirmar que não havia um acordo sobre o impasse. A Secretaria de Governo também negou que Ramos tenha feito compromisso com Bivar.

"Eu acredito que seja uma boa saída, mas isso tem de ser conversado com os dois lados. Eu não patrocinei acordo nenhum. Eu vi com bons olhos apenas", disse Ramos à reportagem.

"Não houve traição, má intenção nenhuma. Os ânimos estão muito exaltados."

Segundo o ministro, ele telefonou a Bivar para tratar de um projeto de lei pautado para esta terça (22) sobre interesses das Forças Armadas. Ele disse ter sido consultado pelo presidente da sigla sobre a possibilidade de criar uma terceira via para a liderança.

Bivar teria questionado como o ministro via a possibilidade de Waldir e Eduardo abrirem mão da liderança. Segundo Ramos, ele respondeu que a movimentação era positiva, mas afirmou não ter se comprometido com acordo. "Minha missão é o pacto federativo, a reforma da Previdência, não vou entrar numa crise interna do partido."

Ele afirmou ter conversado com deputados das duas alas do PSL e ter comentado que uma terceira via era uma saída, mas propôs que os parlamentares falassem entre si sobre essa possibilidade.

Para argumentar que não firmou um acordo, Ramos disse que seria impossível fazê-lo sem conversar com o presidente Jair Bolsonaro, que está em viagem ao Japão, e com o próprio Eduardo. Ele negou ter falado com eles.