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Bolsonaro chega à Ásia sem principais auxiliares da área econômica

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O presidente Jair Bolsonaro (PSL) desembarca nesta segunda-feira (21) em Tóquio para iniciar seu giro pela Ásia sem a companhia de dois de seus principais auxiliares da área econômica: os ministros Paulo Guedes, da Economia, e Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura.

Eles não participam dos encontros em Tóquio e em Pequim. Existe uma expectativa de que Guedes se junte à comitiva no segundo trecho da viagem, por Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita, mas ainda não está confirmado.

As ausências de Guedes e Tarcísio foram notadas pelo setor privado, já que o objetivo declarado da viagem é comercial. Segundo um empresário que pediu anonimato, não está claro a quem o presidente vai recorrer se os investidores chineses pedirem detalhes sobre as reformas --a cargo de Guedes-- ou sobre os projetos de infraestrutura --sob a responsabilidade de Tarcísio.

A agenda de Bolsonaro em Pequim prevê um jantar com grandes empresários chineses e brasileiros, oferecido por Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e um encontro empresarial organizado pela Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Antes de embarcar, Bolsonaro disse que o Brasil "está aberto a fazer negócios" e que "não tem viés ideológico". As declarações contrastam com o conhecido alinhamento do mandatário brasileiro com seu colega americano, Donald Trump, que recentemente firmou uma trégua na guerra comercial que trava com os chineses.

A auxiliar mais relevante da área econômica a seguir o presidente é Tereza Cristina, ministra da Agricultura. Ela chega a Pequim antes da comitiva para negociar a abertura do mercado chinês a produtos agrícolas, como farelo de soja. A China é o principal comprador de commodities do Brasil, com destaque para soja, minério de ferro e petróleo.

Também viajam com Bolsonaro os titulares da pasta de Minas e Energia, Bento Albuquerque, da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, da Cidadania, Osmar Terra, do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e de Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

A presença de Tarcísio estava inicialmente prevista, mas ele acabou desistindo por causa de uma série de reuniões no exterior na semana passada. O ministro deve ir a China e aos países árabes apenas em abril do ano que vem.

A tarefa de tirar dúvidas sobre as concessões, portanto, deve recair sobre Martha Seillier, que assumiu em julho a secretaria especial do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos), ligada à Casa Civil. O nome da funcionária não consta da lista preliminar da comitiva elaborada pelo Itamaraty, mas ela deve se juntar ao grupo em Pequim.

O único representante previsto do ministério da Economia até agora é o chefe da assessoria especial de assuntos institucionais, Caio Megale. Encarregado de representar Guedes em evento em Washington, o secretário especial de assuntos internacionais, Marcos Troyjo, também não vai.

Troyjo é o homem forte do ministério para acordos de livre comércio. O Brasil anunciou que tem interesse num entendimento com o Japão, porém, a avaliação do governo é que não haveria espaço para essa discussão durante a visita de Bolsonaro, que vai a Tóquio para a cerimônia a coroação do imperador Naruhito.

Já a China está fora do radar para negociações de abertura de mercado do Brasil, apesar de ser o principal parceiro comercial do país. Questionado por jornalistas se o governo brasileiro tem interesse num acordo com os chineses, o embaixador Reinaldo José de Almeida Salgado, secretário de negociações bilaterais na Ásia do Itamaraty, disse que não.

Segundo ele, o país está envolvido em diversas discussões e não há funcionários suficientes para encaminhar tudo ao mesmo tempo. Na Ásia, as negociações avançam com Coreia do Sul e Singapura. Vale ressaltar que um acordo de livre comércio com a China seria extremamente complicado por causa da alta competitividade do país na área industrial.

No trecho da viagem destinado ao Oriente Médio, a agenda de Bolsonaro está totalmente voltada para a atração de investimentos. Os assuntos políticos são delicados neste caso, pois o governo Bolsonaro é bastante próximo de Israel. No início do ano, a atual gestão chegou a anunciar que mudaria a embaixada brasileira para Jerusalém, mas acabou voltando atrás por causa da forte reação do mundo árabe.

Em Riade, na Arábia Saudita, o presidente brasileiro será a "estrela" do fórum conhecido como "Davos no Deserto". Também tem reuniões com empresários em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e em Doha, no Catar. O objetivo é convencer os árabes a apostar nas concessões no Brasil.

Conforme dados recolhidos pelo Itamaraty, os fundos soberanos dos Emirados Árabes têm mais de US$ 1 trilhão (R$ 4,1 trilhões) investidos ao redor do mundo, enquanto os fundos sauditas chegam a US$ 850 bilhões (R$ 3,5 trilhões). As aplicações desse dinheiro no Brasil não passam de US$ 5 bilhões (R$ 20,6 bilhões).(Raquel Landim e Marina Dias/FolhaPress SNG)