Fernanda Montenegro defende fim das reeleições sob aplausos no Municipal

Fernanda Montenegro, diante de um Theatro Municipal lotado, defendeu o fim das reeleições com aplausos do público. Foi sua primeira aparição pública desde que sofreu ofensas de Roberto Alvim, diretor da Funarte, no fim de setembro.

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A atriz Fernanda Montenegro (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Alvim disse, nas redes sociais, que Fernanda Montenegro era "sórdida" e que tinha "desprezo" por ela. O diretor da Funarte fez isso depois de a atriz posar para uma foto de capa da revista Quatro Cinco Um vestida como uma bruxa presa a uma fogueira onde seriam queimados livros. 

O assunto era aguardado pelas cerca de 800 pessoas que estavam na plateia do local, mas não foi comentado pela atriz. O nome de Alvim sequer foi mencionado por Montenegro, que narrou histórias de sua vida e leu trechos da nova autobiografia, "Prólogo, Ato, Epílogo" (Companhia das Letras), durante o evento.

Em acenos a assuntos políticos, disse que o teatro é uma forma de resistência, mas não citou a política atual diretamente. "Um livro virou um ato de resistência", começou dizendo. Ela apresentou um panorama histórico dos governos brasileiros desde a época de Getúlio Vargas e defendeu o fim das reeleições. A ideia recebeu aplausos e gritos do público.

Público este que reagia com gritos e aplausos em aprovação às falas da atriz. Previsto para começar às 16h, o bate-papo começou às 16h20 com uma apresentação de Hugo Possolo, diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo. Ele explicou que o convite para a palestra já havia sido feito antes "do anúncio de uma pessoa escrupulosa falar coisas sobre Fernanda".

Após o ocorrido, uma série de personalidades da classe artística e política saiu em defesa da atriz. A polêmica resultou no encaminhamento de uma moção de repúdio às declarações de Alvim feita pela Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados. 

Ao primeiro anúncio do nome da atriz, o público já começou a bater palmas e a gritar. A receberam de pé, após as cortinas vermelhas do teatro se abrirem. A ovação continuou pelos dez minutos seguintes.  "Deusa", "maravilhosa", "linda", gritavam mulheres e homens na plateia entre frases. O público só aquietou quando Montenegro se sentou para iniciar a leitura dramática de sua obra.

Antes de chegar a se apresentar à plateia, Montenegro chamou para subir ao palco o dramaturgo Zé Celso, que foi até as primeiras fileiras do teatro assim que a atriz entrou.

"Eu não tenho o que falar. Essa mulher é um fenômeno do teatro", disse ele ao microfone, ainda sob aplausos e gritos do público de pé. Continuou: "Talvez o melhor fenômeno do teatro. Ela é divina, diabólica e bruxa".

"Somos sobreviventes maravilhosos. Uma geração que trouxe vida na hora perigosa durante anos", aproveitou para dizer Montenegro sobre o colega de teatro. "Sistema nenhum vai nos calar", disse ela de mãos dadas a Zé Celso. "Estamos reunidos aqui em torno da liberdade de expressão. Trabalhei aos prantos e soando por 22 meses para contar a minha história."(FolhaPress SNG)