Principal voz conservadora no MPF atuou no caso do Césio e cometeu gafe sobre Venezuela

Procurador-chefe em Goiás, Ailton Benedito de Souza, 49, é hoje a grande voz do conservadorismo no Ministério Público Federal.

Nas redes sociais, é incensado pela direita, que vê seus tuítes como uma espécie de farol. Benedito, afinal, ataca a esquerda sem dó. Investe contra a chamada “ideologia de gênero” e defende bandeiras como Escola Sem Partido e o endurecimento penal.

Como o procurador me disse numa entrevista publicada no domingo (15), esse é seu estilo, e ele não pretende mudar.

Aliado do futuro procurador-geral da República, Augusto Aras, Benedito deve compor sua equipe, em posição ainda a ser definida.

Sua faceta conservadora pode ser a mais conhecida, mas não é a única. Em 16 anos de carreira no MPF, ele atuou em casos de grande relevância. Comprou brigas, ganhou o respeito de opositores ideológicos e cometeu ao menos uma grande gafe.

Católico fervoroso, mineiro de Paracatu (MG) e torcedor do Atlético-MG, Benedito assume suas opções já na autodescrição biográfica do Twitter, onde tem 80 mil seguidores. “Yahveh é meu pastor, nada me falta. Brasil. Ordem. Justiça. Liberdade. Conservadorismo”, escreve, referindo-se ao termo em hebraico para Deus.

Ele atuação bastante na saúde pública, um campo, diz Benedito, em que colabora frequentemente com esquerdistas, sem grandes problemas.

Uma de suas ações, aceita pela Justiça Federal, obriga os médicos a informarem a parentes o prontuário de pacientes que morrem. O Conselho Federal de Medicina alegava sigilo profissional, mas a medida foi considerada importante para dar transparência sobre o tratamento e eventualmente identificar falhas.

Há anos, ele também tem atuado num dos casos mais rumorosos que já afetou Goiânia, o do Césio 137. O procurador tem representado vítimas do acidente ocorrido em 1987, que deixou quatro mortos.

 

Há cerca de 110 pessoas que tiveram contato direto e indireto com o material radioativo e recebem pensão do Estado. “Ele não tem rodeios com a gente. Nunca deixou de nos receber”, diz Sueli Lina de Moraes Silva, 61, presidente da Associação das Vítimas do Césio 137.

Os associados pleiteiam, entre outros pontos, que o benefício estadual que recebem seja equiparado a um salário mínimo e maior acesso a remédios.

Como seria de se esperar, Benedito tem uma atuação destacada na defesa da liberdade de divulgação de valores conservadores. Já se insurgiu diversas vezes contra tentativas de redes sociais de tirar do ar páginas de direita.

Em maio de 2017, tomou as dores de Thais Azevedo, 35, uma militante antifeminista que havia sido convidada para falar na Universidade Federal de Goiás. Estudantes de esquerda fizeram um protesto que a impediu de dar sua palestra.

“No dia seguinte, ele entrou em contato comigo me perguntando se eu tinha provas. Felizmente, nós filmamos tudo, e ele instalou um procedimento obrigando a universidade e adotar medidas de segurança para eventos semelhantes”, afirma Azevedo, hoje empresária em São Paulo.

Outras causas que ele abraçou são curiosas. Já saiu em defesa de baixinhos que foram barrados em um concurso da Aeronáutica e insurgiu-se contra tentativas de proibir contas de Twitter que alertavam para a ocorrência de blitze da Lei Seca.

Talvez a causa mais pitoresca que defendeu, no entanto, é um tanto constrangedora. Em 2014, pediu investigação contra um suposto aliciamento de jovens brasileiros pelo regime venezuelano.

Na verdade, Benedito se confundiu com uma notícia divulgada pelo governo de Nicolás Maduro, que alardeava a participação de adolescentes em brigadas de comunicação popular na comunidade de Brasil, no estado de Sucre. Era apenas um bairro popular batizado em homenagem ao nosso país. (Fábio Zanini/Folhapress)