No Brasil para evento anti-Foro de SP, deputado critica negociação com Maduro

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - "Os diálogos que estão sendo mediados pela Noruega, em Barbados, assim como os que ocorreram antes, na República Dominicana, não vão levar a nada", diz, em entrevista à Folha de S.Paulo, o deputado Omar González Moreno, do partido Vente Venezuela, sobre as tratativas entre a ditadura de Nicolás Maduro e a oposição. 

"Pior, criam expectativa nos venezuelanos de que dali sairá um acordo para uma eleição livre e justa. Não vai acontecer. Estão enganando os venezuelanos mais uma vez."

Apesar de integrar a Assembleia Nacional, de maioria opositora, e de apoiar o bloco comandado por Juan Guaidó, o Vente Venezuela segue uma linha mais à direita. 

Liderado pela veterana María Corina Machado, a legenda aposta no que chamam de "luta da coragem". Trata-se da ideia de que não se deve mais dialogar com Maduro e que ele só deixará o poder quando acabarem todas as opções, "quando estiver diante de uma ameaça real, ainda que seja pelo uso da força". 

Para González Moreno, seguir dialogando é uma perda de tempo, e a comunidade internacional, contraditória, pois "chama Maduro de ditador, mas estimula a busca de um diálogo". "A fase do diálogo já passou."

O venezuelano está em Brasília a convite da deputada Bia Kicis (PSL-DF) para o fórum Encontro da Liberdade, neste sábado (27), evento em contraposição ao Foro de São Paulo, que se reúne desde quinta-feira (25) em Caracas e que terminará, também no sábado, com uma marcha de apoio ao regime de Maduro.

Criado em 1990, o Foro de São Paulo, chamado por González Moreno de "Fórum da Morte", reúne 400 representantes de 120 organizações de esquerda da América Latina. 

As estrelas desta edição são os ex-guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) Rodrigo Granda e Carlos Antonio Lozada, que receberam autorização da Justiça Especial para a Paz (JEP) colombiana para viajar ao evento.

"Na situação de crise humanitária em que vivemos, o regime de Maduro sediar um evento deste tamanho, pagando passagem e hospedagem para todos os convidados é um absurdo", diz o deputado oposicionista. 

O parlamentar afirma que, além desses gastos, há o dinheiro investido em propaganda. "Enquanto a população não tem o que comer e não há remédios. É um absurdo que o regime banque um evento como esse depois de a ONU soltar um relatório sobre os graves abusos de direitos humanos que ocorrem na Venezuela."

Para o deputado, o Foro de São Paulo é uma ameaça real, porque está atuando "para retomar o poder na Argentina, para conquistar o presidente mexicano [Andrés Manuel] López Obrador e para reforçar a esquerda no pleito colombiano em outubro".

González Moreno já foi governador do Estado de Bolívar, na fronteira com o Brasil, onde está grande parte do chamado Arco Minero del Orinoco, região rica em ouro e sem a presença de autoridades ou qualquer tipo de regulamentação da exploração do minério.

Nos últimos anos, com a inflação e a escassez de recursos nas grandes cidades, muitas pessoas buscam o Arco Minero para conseguir ouro.

O problema é que, pela falta de orientação e de regras para a atividade, essa exploração é feita de maneira não apropriada e tem, segundo estimativas de ONGs de saúde do país, colaborado para a disseminação de doenças como a malária.

"Além desse problema gravíssimo de saúde, que a estrutura estatal não tem como atender porque está sucateada, nessa região estão acampados o ELN [guerrilha colombiana Exército de Libertação Nacional], os dissidentes das Farc, paramilitares e grupos criminosos que praticam estelionato contra a população e contra quem vai exercer essa atividade apenas para levar para casa algo de ouro que possa alimentar sua família", diz o parlamentar. "O regime de Maduro faz vista grossa para essa terra sem lei."

O deputado ainda corroborou a declaração do Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que, em visita a Buenos Aires, na semana passada, afirmou sem apresentar evidências que a milícia libanesa Hizbullah e outros grupos extremistas estariam atuando na região.

"Não tenho dúvidas de que, no caso da Venezuela, é no Estado Bolívar que eles estão em maior número. Temos evidências a partir do fato de terem sido localizados ali iranianos com vínculos com esses grupos usando passaportes venezuelanos", diz.