Randolfe Rodrigues: 'Ele não saiu do palanque'

Senador da Rede ressalta despreparo de Bolsonaro e diz que a Esplanada dos Ministérios reproduz a média do chefe

Criado em uma família de esquerda e filho de sindicalista e militante do PT, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) entrou na política com apenas 23 anos. É professor, graduado em história, bacharel em Direito e mestre em políticas públicas. No 2º mandato de senador, montou, ao lado do senador Cid Gomes (PDT-CE), o maior bloco de oposição na Casa com 14 parlamentares, deixando o PT de fora. Na conversa com o Jornal do Brasil, Randolfe garante que quer a oposição trabalhando unida e que não há antagonismo ao PT. Para o líder bloco, o ministro da Educação, Velez Rodriguez, ofendeu os educadores Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro e nem deveria estar mais no cargo. Na entrevista, Randolfe critica duramente a reforma da Previdência, fala do despreparo do presidente Bolsonaro e seus ministros e diz que o ex-juiz Sérgio Moro vai sair do governo menor do que entrou. Para o senador, o governo Bolsonaro facilita o trabalho da oposição, que pode elevar o tom a depender dos acontecimentos como é o caso de uma CPI do Laranjal, que não está descartada, e se o governo passar por cima do Congresso realizando o leilão da cessão onerosa do pré-sal. "Se o governo levar a cabo que vai estabelecer a divisão da cessão onerosa, é um atropelo. O excedente da cessão onerosa é algo em torno de R$ 100 bilhões e o ministro Paulo Guedes quer passar a mão nisso tudinho para resolver o déficit fiscal".

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Senador Randolfe Rodrigues (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Depois de tantos impropérios ditos pelo ministro da Educação, não seria o caso de demissão?

A realidade é que o ministro não tem respostas para os gravíssimos problemas da educação, a única declaração que ele fez até agora é que a universidade deve ser para uma elite. As únicas contribuições da política educacional do governo Bolsonaro tem sido aviltar os símbolos da educação brasileira, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. Em nenhum governo decente, minimamente democrático, com o mínimo de senso republicano, esse ministro resistiria à primeira declaração. Todas as declarações desse ministro da educação são mal educadas, aliás como mal educadas são as declarações que têm sido feitas por boa parte da Esplanada dos Ministérios.

São ministros problema?

A Esplanada reproduz a média do chefe, a média do presidente é essa. Ele acha que pode governar assim como ganhou as eleições, com declarações fakes para animar a base nas redes sociais. Com palavras de ordem e jargões, ele acha que pode governar da mesma forma, só que governar um país é um pouco mais complexo. Tem sido um governo de bravatas e desmentidos de declarações anteriormente ditas. Na questão dos direitos humanos, temos uma legião de crianças desamparadas, milhares de mulheres vítimas de feminicídio, de todo o tipo de violência, e a ministra se preocupa em mulher vestir rosa e em homem vestir azul. No meio ambiente, temos gravíssimos problemas ambientais, o Brasil está sendo condenado a não receber mais recursos da comunidade europeia. Isso por conta de declarações atabalhoadas de um ministro que sequer conhece quem foi Chico Mendes.

O presidente Bolsonaro não está preparado para governar?

Temos um presidente da República que não tem um projeto de estado nacional. Paradoxalmente, o que tem de melhor nesse governo talvez seja parte do núcleo militar.

Como deve ser conduzida essa questão da Venezuela?

A ação mais atabalhoada e errada! Foi uma ajuda humanitária fake, o Brasil cumpriu quase um papel auxiliar do Trump para criar o clima. A Venezuela vive sob uma ditadura, (...) e isso não pode ser atribuído única e exclusivamente à pressão norte-americana, ao embargo, tem um erro concreto na condução lá. O Brasil tem que ser protagonista em buscar uma solução negociada.

O atual governo tem condição de ser mediador?

Nenhuma, porque da forma como está conduzido, fazendo uma queda de braço, tentando estabelecer rupturas... Depois dessa tentativa de ajuda humanitária fake, o governo de Maduro ficou mais forte porque não tem nada que una mais uma nação do que a resistência ao invasor externo.

Qual a avaliação sobre as denúncias de candidaturas laranja?

Vamos aprovar o convite para que o ministro do Turismo compareça aqui, com o não comparecimento dele, converteremos em convocação. No caso do Bebianno, (...) me parece que a disposição anterior dele de falar, claramente recuou. O que aconteceu com o Bebianno é que ele se indispôs com o núcleo familiar do presidente. Quem demitiu foi claramente o filho, algo ruim para a democracia e os valores republicanos. Coisas de família são resolvidas na família e não no Palácio do Planalto. Não tem precedente na história republicana um papel tão protagonista do núcleo familiar e isso enfraquece o próprio presidente. O presidente está se enfraquecendo muito rápido porque quem demite o ministro é o filho, há uma divisão [no comando da política externa] entre o Itamaraty e o vice-presidente. Temos sentido cada vez mais um presidente esvaziado.

Há análises de que se o presidente pode não durar no cargo...

O governo Bolsonaro é sustentado no binômio; um, o moralismo de goela que está sendo desmoralizado. O episódio dos laranjas envolvendo o filho do presidente, cada novo episódio que surge desmoraliza, inclusive o baluarte de renovação e da ética que foi colocado no governo que é o ministro da Justiça. O ministro é obrigado a desdizer o que tinha dito antes, chega a dar pena do ministro Sérgio Moro porque ele poderia ser um protagonista da cena republicana até como eventual candidato a presidente da República ou como ministro do STF, entra no governo em que a média é muito desqualificada e fica secundarizado. Não sei até onde aguentará. Num governo com essas características, se aguentar, ele vai sair muito menor do que entrou. O outro pé, é ofertar ao mercado em holocausto a reforma da Previdência. Se não conseguir entregar, o governo vai apodrecer muito cedo.

O que o sr acha da reforma da Previdência?

É a pior reforma de todas as reformas, desde o governo Fernando Henrique. Nenhuma foi tão cruel quanto esta, porque desestrutura a coluna vertebral da Seguridade Social, extingue a Previdência. Não estou usando figura de linguagem, porque ela estabelece adotar o regime de capitalização, que resultou no Chile em suicídio dos idosos. Não é verdade o que o ministro Paulo Guedes disse que é para combater privilégios. Outro fake diz que a reforma é para acabar com a aposentadoria dos políticos. É mentira! (...) Concede para os políticos e para os servidores e os maios pobres, não faz concessão. Com o BPC, o que se faz é uma crueldade sem limites.

O sr defende uma oposição diferente a do PT. Que tipo de oposição se faz a um governo tido como de extrema direita?

Até agora, quem está facilitando o trabalho da oposição é o próprio governo. Pela qualidade dos líderes escolhidos no Congresso, dificultando a relação com a própria base, pelo conjunto de medidas...

A oposição pode se tornar mais ofensiva?

Não temos como não denunciar e não enfrentar quando o ministro da Educação orienta escolas a filmar crianças e jovens, quando diz que que o dia ou o ano letivo tem que ser aberto com 'Brasil acima de tudo. Deus acima de todos'. Não tem como não se levantar contra ameaças ao estado de direito, não tem como não convocar o ministro do Turismo a dar explicações, quando ele é envolvido num esquema tenebroso de corrupção. Com esse repertorio aí, não temos como não atuar como estamos atuando.

Isso aproxima o bloco do PT...

Ou quem sabe, aproxima eles da gente. Não temos antagonismos em relação ao PT, só não queremos reestabelecer uma velha polarização que levou ao surgimento do bolsonarismo, que surgiu como contraposto ao petismo.

O PT tem toda a culpa sobre isso?

Acho que tem, quando negligenciou alguns valores. [Mas,] Esse negócio da bandeira de combate à corrupção, isso é hipocrisia dos conservadores desse país. Eles fundaram a corrupção, os setores mais atrasados deste país, desde a chegada dos portugueses no Brasil colônia, foram os fundadores da corrupção.

O erro do PT foi estar ao lado deles...

Não poderíamos ter negligenciado nisso. A eleição de 2018 marcou o fechamento de um ciclo do pacto democrático constituído a partir da transição democrática de 1985/88, baseado no chamado presidencialismo de coalizão e baseado na governabilidade dada pelo PMDB e PSDB. A chegada ao poder de uma proposta de centro-esquerda possibilitaria a ruptura desse modelo. Nos convertemos a esse modelo, que em algum momento iria ser esgotado e foi esgotado da pior forma.

No conteúdo vocês são similares, a oposição não seria mais a forte se estiver unida? O PDT de Ciro Gomes que não quis o PT no bloco?

Não, vamos estar juntos! Só que tem algumas pautas que vamos acabar tendo diferenças. Quanto mais evoluirmos em algumas pautas, mais aproximação vamos ter na atuação política, é necessária uma atuação comum. Vou trabalhar para a unidade do campo democrático e progressista. Temos que encontrar mais razões que nos unem, do que razões que nos separam.

Na eleição do Senado, o sr defendeu o voto aberto, que protege o parlamentar de chantagens e pressões. Tem senador que disse que vai decidir o voto pelas redes sociais. Isso não é votar com a plateia?

O voto fechado foi instituído no Parlamento para proteger do arbítrio do Rei, na ditadura era um instrumento dessa forma, em um estado de direito, não. Um parlamentar tem que ter posição. Não escondo minhas posições políticas, alguns parlamentares acham que deve ser pautado pelas redes sociais, não é o meu caso.