Lula: 'Vou provar minha inocência'

Muito emocionado, ex-presidente promete ao neto Arthur mostrar 'quem é ladrão neste país e quem não é'

O ex-presidente Lula participou do velório do neto Arthur Araújo Lula da Silva, de 7 anos, ontem, 2, após autorização da Justiça Federal do Paraná. Durante a cerimônia, o ex-presidente prometeu ao neto que 'vai cuidar da família e de todos nós que vamos ficar aqui'.

"O Arthur foi um menino que sofreu muito bullying na escola, porque era neto do Lula. Por isso, eu tenho um compromisso com você, Arthur, eu vou provar a minha inocência e quando eu for para o céu, eu vou levando o meu diploma de inocente", afirmou.

"Vou provar quem é ladrão neste País e quem não é. Quem me condenou não pode olhar nos olhos dos netos como eu olhava para você."

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O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (c) é escoltado pela polícia ao deixar o cemitério Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo, no Grande ABC (Foto: Daniel Teixeira/AE)

Segundo relatos, Lula chorou muito durante a cerimônia, da qual participaram dois pastores metodistas e um padre católico, e consolou o filho Sandro Luis Lula da Silva e a nora Marlene Araújo. O ex-presidente ficou mais de 30 minutos recebendo cumprimentos de mais de 100 pessoas.

Ao deixar o cemitério, Lula subiu no carro da PF e acenou para seus apoiadores. Na hora que ele desceu, o delegado da PF disse: "O senhor sabe que não devia ter feito isso."

"O senhor sabe que eu devia", respondeu Lula.

O petista saiu de Curitiba, onde está preso, no começo da manhã de ontem para comparecer ao velório do neto, que morreu na sexta-feira, 1, vítima de meningite meningocócica. Lula chegou por volta das 11h e permaneceu no local até as 13h.

Apoiadores do ex-presidente o esperaram na frente do cemitério Parque da Colina. Eles rezaram um Pai Nosso e homenagearam o neto de Lula com gritos de 'Arthur presente agora e para sempre'. Na saída, aplaudiram novamente o ex-presidente e gritaram 'Lula, Lula, olê, olê, olá', "Lula guerreiro, do povo brasileiro" e 'Polícia Federal, vergonha nacional'.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República, comentou em tom crítico na sexta-feira a autorização dada ao petista. "Lula é preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de outro preso morrer ele também será escoltado pela PF para o enterro? Absurdo até se cogitar isso, só deixa o larápio em voga posando de coitado", escreveu no Twitter.

Neste sábado, após críticas de apoiadores de Bolsonaro, usou novamente o Twitter para explicar: "Perguntado se Lula deveria sair da cadeia respondi que não - até por uma questão de isonomia com os demais presos. Agora, sobre a morte da criança é óbvio que é um fato lamentável e indesejável. Isso independe de ideologia. Não misturem as coisas."

Lula deixou a carceragem da Polícia Federal na capital paranaense por volta das 7h em um helicóptero, que o levou ao aeroporto do Bacacheri. No terminal, o ex-presidente embarcou em um avião oficial do Governo do Paraná para São Paulo.

O petista chegou ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, por volta das 8h30. De lá, Lula foi para São Bernardo do Campo. O ex-presidente foi autorizado a ficar 1h30 no velório e, por isso, aguardou por algumas horas até chegar ao velório. A cremação de Arthur estava marcada para as 12h no cemitério onde também foi cremada a avó do garoto, Marisa Letícia, morta em 2017.

A PM de São Paulo fez um esquema especial de segurança antes da chegada do ex-presidente ao velório do neto. Ao todo, seis PMs armados estavam na capela onde o corpo do menino está sendo velado. Além disso, mais de dez viaturas ficaram no entorno e uma barreira feita na entrada do cemitério causou incômodo a família de Lula.

Durante a noite de sexta e a madrugada de sábado parentes, amigos da família e aliados de Lula estiveram no local para prestar solidariedade à família. Entre eles a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, os ex-ministros Alexandre Padilha, Gilberto Carvalho e Paulo Vannuchi, o médico Roberto Kallil Filho e o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto. Ontem de manhã chegaram o deputado estadual Emido de Souza e o advogado Marco Aurélio Carvalho.

Segundo Paulo Okamotto, entre as condições impostas a Lula para ir ao sepultamento foram não ficar em espaço aberto nem falar com a população. Advogados petistas disseram que o ex-presidente não poderia ficar no mesmo espaço em que estavam a ex-presidente Dilma e Gleisi.

A ex-presidente Dilma Rousseff chegou ao velório por volta das 9h30, acompanhada do ex-ministro Aloízio Mercadante. Também foram à cerimônia o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o líder do MTST Guilherme Boulos. Por volta das 10h20, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), chegou ao local.

O clima no velório era de profunda tristeza. Sandro chorava em uma cadeira ao lado do caixão branco do garoto sob o qual foram postos um par de chuteiras e uma bola de futebol.

A juíza Carolina Lebbos, da 12.ª Vara Federal, autorizou na sexta-feira, 1.º, que o ex-presidente fosse à cerimônia do neto. A magistrada proibiu o ex-presidente de conceder entrevistas. Após o pedido da defesa para Lula ir ao velório, o processo em que corre a Execução Penal de Lula entrou em sigilo.

Carolina autorizou a participação de Lula no velório, mas ordenou o sigilo sobre os detalhes do deslocamento 'a fim de preservar a intimidade da família e garantir não apenas a integridade do preso, mas a segurança pública'. A força-tarefa da Lava Jato manifestou-se de forma favorável à ida do ex-presidente ao velório. Lula chegou a São Paulo em um avião oficial do governo do Paraná. Em nota, o governador Ratinho Jr. (PSD) informou que atendeu a um pedido da PF.

O menino de 7 anos era um dos netos mais próximos do ex-presidente. Era de Arthur um tablet apreendido pela PF durante a busca e apreensão nas casa de Lula em 2016. Além da preocupação com Sandro, seu filho, Lula lamentou por Marlene, mãe de Arthur. Depois da morte de Marisa Letícia, em 2017, Marlene ajudou a preencher o espaço criado pela ausência da ex-primeira-dama.

O ex-presidente está preso desde 7 de abril do ano passado. O petista foi condenado no caso triplex por corrupção e lavagem de dinheiro a uma pena de 12 anos e um mês de reclusão. (Estadão Conteúdo)