O preço de uma demissão

Gustavo Bebianno confirma que será exonerado, diz ter 'carinho' por Bolsonaro, mas cobra lealdade nas redes sociais

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Brasília - O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, confirmou, no início da tarde de ontem, que Jair Bolsonaro vai exonerá-lo amanhã. Ele afirmou que está com a consciência tranquila e que ainda tem "carinho" pelo presidente. Apesar da sinalização de que será demitido, Bebianno disse que ainda aguarda a formalização da exoneração na edição do Diário Oficial da União. Segundo interlocutores, o presidente Bolsonaro já teria assinado a demissão.

Nos últimos dias, políticos e militares tentaram interceder a favor do secretário-geral, mas o presidente se mostrou irredutível e, segundo apurou o jornal "O Estado de S. Paulo", planeja nomear um general para o lugar do ministro. Se isso ocorrer, será o nono militar a ocupar o primeiro escalão. O mais cotado para assumir é o general Floriano Peixoto, secretário-executivo da pasta, que esteve ontem com Bolsonaro. Peixoto é paraquedista, veterano da missão da ONU no Haiti e um dos cinco generais formados em 1976 na Academia Militar das Agulhas Negras a ocupar cargos no governo.

Quebra de confiança

Em conversas reservadas, o presidente avaliou que o chefe da Secretaria-Geral quebrou a relação de confiança com ele ao "vazar" áudios de diálogos entre os dois. O ministro nega o vazamento.

Preocupados com a alta temperatura da crise, auxiliares do presidente observam, por sua vez, que Bebianno ainda pode criar muitos problemas para o governo, se a demissão não for revertida, porque seria o que se chama no jargão político de "homem bomba". Um desses interlocutores, que conversou recentemente com Bolsonaro, disse, porém, que a situação é "irreversível".

Segundo esse auxiliar, que falou sob a condição de anonimato, a decisão de Bolsonaro não se deve à interferência do vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ). O filho de Bolsonaro chamou Bebianno de "mentiroso" logo após o ministro ter concedido entrevista ao jornal "O Globo", na terça-feira, dizendo que não estava isolado no Palácio do Planalto depois da denúncia, publicada pelo jornal "Folha de S.Paulo", de que teria patrocinado candidaturas laranjas do PSL em 2018, para desviar recursos do Fundo Eleitoral. À época, Bebianno presidia o PSL.

Na tentativa de mostrar que não havia crise, o ministro afirmou a "O Globo" que, no dia anterior, falara três vezes com o presidente, então internado no Hospital Albert Einstein, recuperando-se de cirurgia para reconstrução do trânsito intestinal. Carlos Bolsonaro desmentiu essas conversas no Twitter, e o presidente endossou a atitude do filho, horas depois, em uma entrevista à TV Record.

Mais tarde, no entanto, Bolsonaro também mandou Bebianno cancelar viagem para o Pará, com outros ministros, porque não gostou de saber que ele havia convidado um veículo de comunicação para acompanhar a comitiva. A partir daí, o chefe da Secretaria-Geral teria mostrado a amigos áudios com a voz de Bolsonaro ordenando que ele suspendesse a viagem, além de outras conversas.

Ao tomar conhecimento dessa atitude, o presidente - que havia resolvido manter Bebianno no cargo - ficou furioso e decidiu dispensá-lo. Na sexta-feira, em conversa ríspida com o ministro, chegou a oferecer a ele uma diretoria na Itaipu Binacional, mas Bebianno recusou. "Não estou no governo por causa de cargos. Sou uma pessoa leal", afirmou o chefe da Secretaria-Geral.

Questionado sobre o tratamento recebido de Bolsonaro, Bebianno disse ter encarado todo o processo com "perplexidade". E ontem mais um integrante da família Bolsonaro entrou na confusão. Eduardo, deputado federal pelo PSL-SP, compartilhou uma postagem na qual Bebianno é criticado e que chama de "jumento" quem diz que Carlos Bolsonaro atrapalha o pai.

Na postagem compartilhada, Bebianno é apontado como envolvido na sabotagem da escolha de Luiz Philipe de Orleans e Bragança para vice-presidente e num esquema de utilização de laranjas durante as eleições de 2018. E o texto conclui: "Se fosse qualquer outro ministro e Bolsonaro o defendesse, a mídia e membros do establishment iriam dizer que o presidente estaria passando pano pra corrupto, mas como grande parte está defendendo Bebianno, somos levados a concluir que ministro tem amigos no establishment e que o buraco é mais embaixo. E ainda tem jumento que diz que o Carlos atrapalha o pai. Vocês são idiotas ou o quê?".



Bebianno diz que será demitido, 'a tendência é essa, exoneração', mas quer ver decisão no Diário Oficial. Antes disso, postou indiretas na internet


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