Na primeira crise de seu governo, Bolsonaro deixa em suspenso o destino do ministro Bebianno

Com a crise instalada no governo, pela iminente demissão do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, o presidente Jair Bolsonaro, bem que tentou passar a imagem de governabilidade no dia seguinte à alta pós-operatória. Passou o dia em reuniões com ministros e parlamentares, tratando do texto da reforma previdenciária a ser encaminhada ao Congresso, mas no Planalto e nas duas casas parlamentares, o assunto era a lavação de roupa suja entre a família do presidente e o seu amigo ministro.

Após ser chamado de mentiroso pelo vereador Carlos Bolsonaro e ter o xingamento repetido duas vezes pelo próprio presidente, Bebianno se recusou a pedir demissão e pagou para ver se Bolsonaro tomará a iniciativa, segundo parlamentares que estiveram com ele. Cancelou a agenda oficial, e passou o dia no hotel onde mora, em conversas com aliados políticos do seu partido, o PSL. Tentou em vão visitar Bolsonaro, convalescente no Palácio no Alvorada. Acabou indo para o Planalto no final da tarde, para elaborar uma nota de esclarecimento sobre as denúncias de fraude eleitoral envolvendo seu nome, que deram início à crise atual.

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Bolsonaro despachou no Alvorada com o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (Foto: Instagram Bolsonaro)

Por ter sido presidente do PSL durante a campanha eleitoral, ele é suspeito de liberar verbas do Fundo Eleitoral para candidatas inexistentes. Para demonstrar que não havia rusgas, por isso, com o presidente, ele afirmou em entrevista que havia conversado com Bolsonaro na segunda feira. Carlos negou, via Twitter e chamou o ministro de mentiroso.

Bebianno tem aliados importantes, como o vice-presidente Hamilton Mourão e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que negociou com ele o apoio do PSL à sua recondução ao cargo na recente eleição da Mesa Diretora. Em diferentes momentos, ontem, Mourão deu declarações em defesa do ministro. Ele defende que o tratamento a ser dado a Bebianno seja o mesmo que o governo deu ao ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, também suspeito de gerir verbas para candidatos fantasmas. "Precisa investigar a questão do PSL? Lógico! Até lá, Bebianno está no mesmo pacote do ministro do Turismo. Não é assim. Ele sempre foi leal", disse.

Maia condicionou o bom trânsito da Reforma Previdenciária na Casa à manutenção do ministro no cargo. Segundo o jornal "O Globo", ontem cedo o deputado teria ligado para o ministro da Economia, Paulo Guedes, dizendo que a exoneração de Bebianno atrapalharia a aprovação da matéria. A tese é de que ao fazer a vontade do filho, demitindo o ministro de uma importante pasta, Bolsonaro estaria sinalizando que poderá descumprir acordos com o Congresso e até perseguir parlamentares, como ele mesmo, caso esse fosse o desejo dos filhos. Em outra entrevista, ao G1, Maia disse ser normal que, como presidente de partido, que Bebianno transferisse verbas para os diretórios do PSL, lembrando que o repasse não foi direto para um candidato.

O recado foi levado por Guedes que, junto com ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, desafeto de Maia, embora do mesmo partido, passou o dia com o presidente.

Outro aliado de Bebianno, Major Olímpio (PSL-SP), importante interlocutor do governo no Senado, como líder do PSL, defende em profundidade o ministro. "Como presidente do partido em SP, atesto que não houve irregularidades", disse o senador, que se propõe a ser o pacificador no conflito causado pela confusão no próprio partido. "Eu tenho certeza que no momento que o ministro Bebianno tiver uma reunião pessoal e reservada com o presidente, tudo vai se esclarecer".

O líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), disse que convocará o ministro a prestar esclarecimentos, ainda que ele seja demitido. Randolfe cobrou que o presidente tome alguma atitude, demitindo ou, ao menos apurando os fatos. "Ele ficou famoso por ter usado uma caneta Bic na assinatura da posse. Agora tem que usar a mesma caneta para tomar as providências devidas". O parlamentou disse ainda que é grande o ônus que a sociedade paga pela paralisia do governo.