Heleno sofre pressão

Oposição quer ouvir ministro do GSI, mas general diz que não vai convidado, só se for convocado

Depois que a oposição anunciou que quer explicações sobre a espionagem das atividades da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, afirmou, ontem, que só dará explicações se for convocado. "Se fosse convidado, não. Se for convocado, sou obrigado a ir", disse. O jornal "O Estado de S. Paulo" revelou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) produziu relatórios detalhados sobre a preparação do Sínodo da Amazônia, um encontro religioso convocado pelo Papa Francisco, que acontecerá em outubro, em Roma.

"A preocupação com o Sínodo é uma preocupação real porque algumas pautas são de interesse da segurança nacional. Então acaba preocupando a Abin e o GSI, mas em nenhum momento (tem a ver com) espionar alguém, monitorar alguém, algo com essa conotação", explicou Heleno. "Quem cuida da Amazônia brasileira é o Brasil, não tem que ter palpite de ONG estrangeira, de chefe de Estado estrangeiro. O Brasil não dá palpite no deserto do Saara, no Alaska."

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O general Heleno mantém sua posição: "Quem cuida da Amazônia brasileira é o Brasil" (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

O requerimento de convocação para o ministro comparecer ao plenário da Câmara já foi protocolado pelo deputado Márcio Jerry (PCdoB-MA), que considerou o episódio "muito grave e inadmissível". Para ele, se o fato for comprovado, será "um dos maiores escândalos deste começo de ano". "É inaceitável a volta da "doutrina da segurança nacional" utilizada de maneira nefasta pela ditadura banida do nosso país há três décadas", afirma o deputado. O requerimento ainda precisa ser votado pela Câmara por maioria simples. Se for aprovado, o ministro será obrigado a comparecer a uma audiência sob risco de ser punido por crime de responsabilidade.

Ontem, Heleno também criticou a interferência de organizações não-governamentais (ONGs) estrangeiras e autoridades internacionais na Amazônia. Segundo ele, o tema é de "soberania" nacional e há uma preocupação em não deixar que entidades "queiram dar palpite em como deve ser tratada a Amazônia brasileira". "[Da] Amazônia brasileira quem cuida é o Brasil." "Não vou me meter na Amazônia colombiana, eles fazem o que eles quiserem. Na Amazônia peruana eles fazem o que eles quiserem, desde que o que for feito não afete a integridade ecológica da nossa Amazônia", disse em São Paulo.

O Sínodo vai discutir a "Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral", abordando a situação dos povos indígenas e quilombolas, desmatamento e mudanças climáticas. Para o Palácio do Planalto, esse temas são uma "agenda da esquerda". Informes militares teriam alertado sobre a necessidade de conter o avanço da Igreja Católica, considerada aliada tradicional do PT, na liderança da oposição ao governo Bolsonaro. "Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí", disse o general.

O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) também comunicou que vai representar contra o general Heleno por crime de improbidade administrativa por considerar "criminoso o monitoramento". "Nada justifica a espionagem política", disse. Teixeira criticou o governo pela "escalada autoritária" em usar "servidores públicos para espionagem com finalidades politico-ideológicas".

Em vídeo, o secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner, afirmou que o Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia é "um evento, uma celebração da Igreja e para a Igreja". "Os povos, o meio ambiente. Toda essa realidade, certamente será abordada. O Santo Padre, no entanto, deseja que encontremos novos caminhos para a evangelização, para a Pan-Amazônia", afirmou.

 

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